Crónica de uma morte prematuramente anunciada

Nos últimos anos tornou-se dominante uma corrente de opinião que nos quis fazer crer que a esquerda estava em declínio, perdendo influência, eleições e, mais preocupante, capacidade de apresentar propostas políticas mobilizadoras, capazes de enfrentar um populismo crescente que parecia oferecer aos mais descrentes soluções para todos os problemas do mundo.

O declínio vinha desde a "terceira via" de Tony Blair, que afastou a esquerda democrática da sua matriz social-democrata, esbatendo as diferenças relativamente à direita. Seguiu-se a crise financeira, que veio reforçar o predomínio ideológico da direita. Apesar de as políticas neoliberais estarem na origem da crise, anacronicamente, foi a narrativa neoliberal que prevaleceu como explicação e solução para a crise. Em Portugal e noutros países do sul, dizia-se "vivemos acima das nossas possibilidades"; no centro e norte da Europa ouvia-se "eles são culpados, têm de pagar". Conclusão: a austeridade era a solução; tínhamos de empobrecer.

Comunicação social, comentadores e a maioria dos cidadãos tinham interiorizado a narrativa da direita. Defender políticas de esquerda era ficar à margem.

Alguns atreveram-se, então, a anunciar o fim da social-democracia europeia.

Mas, em 2015, António Costa iniciou uma mudança profunda na política europeia. A resposta à crise com políticas de direita tinha corrido mal. A partir de Portugal demonstrava-se que as de esquerda, virando a página da austeridade, resultavam muito melhor.

A resposta à crise covid veio consolidar esta mudança, com a maioria dos países, mesmo os governados pela direita, a adotarem receitas próprias da doutrina social-democrata: investimento público; função redistributiva do Estado; valorização dos serviços públicos, nomeadamente na área da saúde; emissão de dívida conjunta pela UE para financiar a recuperação.

As consequências políticas estão a fazer-se sentir um pouco por toda a Europa, com a recuperação eleitoral da esquerda democrática.

Além de os sociais-democratas estarem nos governos de grandes países como Espanha e Itália, pela primeira vez em 62 anos, os cinco países nórdicos têm governos de esquerda, depois da vitória, há poucos dias, da oposição de centro-esquerda na Noruega.

Na Alemanha, as sondagens apontam uma forte possibilidade de o SPD ganhar as eleições do próximo domingo. A defesa de uma sociedade mais justa e sustentável poderá resultar na primeira vitória nos últimos 20 anos.

Em Portugal, também no domingo, tudo indica que o PS voltará a ter uma grande vitória nas eleições autárquicas.

Naturalmente, não há apenas vitórias, mas o certo é que depois de lhe ter sido vaticinado o fim, a esquerda volta a desempenhar um papel-chave em muitos países, e as políticas do socialismo democrático voltaram a ser a referência de muitos cidadãos para uma sociedade de bem-estar.

Parafraseando Mark Twain, as notícias da morte da esquerda foram manifestamente exageradas.

16 VALORES
Poder local

Uma das grandes conquistas de Abril é a eleição democrática dos órgãos autárquicos. São os políticos que mais perto estão dos cidadãos, resolvem problemas concretos e desenvolvem o território. Merecem que no domingo todos vamos votar.

Eurodeputado

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