CP: a radicalização sem fim à vista

21h50 desta sexta-feira à noite - Gare do Oriente, Lisboa. Os painéis da CP mostram uma infindável lista de comboios suprimidos, à exceção de uma composição para Tomar. Em dias de greve não vale a pena arriscar com a mais imprevisível empresa portuguesa. Se algo pode correr mal, vai ser ainda pior. Foi o caso. O comboio das 22h00 para o Porto era o último do dia e um dos poucos que figurava na lista de serviços mínimos. Enfim, ainda que tarde, pelo menos havia um "Intercidades" para salvar quem teve mesmo de trabalhar na capital. Só que... erro. O comboio que figurava na lista de serviços mínimos era do dia 7, à mesma hora. Sim, a greve era dia 8, mas no dia anterior já falham. Portanto... é sexta à noite e não há comboio para o Norte - o último partiu às 19h30. Decisão desesperada: uma corrida a toda a velocidade até aos autocarros que ligam Lisboa ao Norte (não falham e são mais baratos). Só que... todos os lugares estão vendidos até à 1h da manhã.

É isto, eternamente, com a CP. Quem não tem autocarros para ver o seu problema resolvido in extremis, dorme em Lisboa e paga o que calhar. Aliás, quem não tem automóvel em Portugal dificilmente consegue ter uma situação profissional sem falhas absurdas, sem uma vida de suspense permanente por causa das greves, das obras, dos atrasos. Quantas vezes cheguei atrasado a Lisboa na minha vida? Não têm conta. E agora a Linha do Norte volta a demorar três horas entre Lisboa e Porto. Some-se a isto as quebras de serviço de voz e dados - como se esta linha não estivesse no troço litoral mais desenvolvido do país. Um caos.

Segunda parte da história. 5h56 da madrugada, Braga, este sábado. O comboio para Lisboa não vai sair. Porquê? A greve de sexta afeta os comboios da véspera e os do dia seguinte. Os sindicatos interpretam que os trabalhadores não podem estar em greve longe de casa. E então já não se trabalha antes, durante e depois do dia da greve sempre que há deslocações sem regresso. Um dia de greve vale por três em disrupções e imprevisibilidade! Brilhante.

Este é o verdadeiro drama que destruiu a nossa confiança na CP e assusta nos investimentos em ferrovia. Porque, infelizmente, as empresas públicas estão completamente manietadas por alguns sindicatos radicalizados. Acrescente-se, no entanto, que eles também são o espelho de uma incapacidade total dos governos, décadas a fio, em premiarem os melhores funcionários ou gastarem dinheiro a gerir dignamente as carreiras nas empresas públicas. Lá está, voltamos sempre à ditadura das Finanças: o que não se paga para gerir desempenhos, paga-se em prejuízos e ingovernabilidade. (Sobre isto Cavaco nunca falou.)

Numa altura em que a pandemia estimulou o transporte individual, uma luta radical dos sindicatos de transportes vai ajudar a destruir o que se tinha começado a fazer com o passe-famílias e a pedagogia da descarbonização. Sem uma base de entendimento de longo prazo entre governo, administrações destas empresas e sindicatos resta aos contribuintes uma enorme dúvida: os milhões de investimento em ferrovia também vão para um buraco sem fundo.

Recorde-se o que se passou na TAP: depois da privatização, o número de greves desceu radicalmente. Ora, o que se precisa de fazer na CP para evitar que milhões e milhões sejam perdidos todos os anos, exatamente porque não é possível confiar na empresa? O caso inglês mostra quão má é a privatização da ferrovia. Mas o português mostra quão péssimo é o sistemático sequestro político da empresa. Desistimos de novo dos comboios?

Jornalista

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