Costa ficará refém da ditadura da maioria?

Publicado a
Atualizado a

Numa legislatura em que um partido tem a maioria dos deputados, teria sido importante que o Presidente se tivesse concentrado em marcar os limites do funcionamento dessa maioria, bem como em sinalizar a ambição a que deve estar sujeita essa maioria para fazer o que tem de ser feito, "sem álibis, nem desculpas". A ditadura da maioria não se impõem desde já apenas na organização da mesa da Assembleia da República, manifesta-se igualmente na recusa em aceitar que o mundo mudou, de tal forma que o programa do governo não pode ser basicamente o programa eleitoral desenhado há quatro meses.

Rejeitar a eleição de um candidato da Iniciativa Liberal ao cargo de vice-presidente do Parlamento é tão democrático como rejeitar o candidato do Chega, partido que luta contra o sistema e defende a quarta República, mas diz-nos coisas opostas. No segundo caso, sinaliza-se a defesa da Democracia recusando com mais de 80% dos votos um cavalo de Tróia, enquanto que no primeiro se está apenas a exercer o poder absoluto de recusar "à la carte" o que precise de uma maioria de votos que apenas o PS tem. Contar com a ajuda do PSD só serve de desculpa. Num Parlamento com tanta diversidade, ter uma mesa bicolor é definitivamente mau sinal.

De igual forma, um programa de governo que é um estado de negação sobre o risco real de uma estagflação, que ignora a necessidade de alterar o investimento na Defesa e pouco ou nada diz sobre a inevitabilidade de acelerar uma mudança radical na política energética só é possível com uma maioria que se autossatisfaz. Para tirar o país do buraco onde se encontra há décadas, perdendo posições relativas no índice de riqueza da União Europeia, esta maioria precisa de se libertar, desde o início, de todos os tiques do quero-posso-e-mando. Só assim será capaz de mobilizar o país para a mudança que ele precisa, evitando ter como alternativa o desencanto generalizado que nos conduz invariavelmente para o pântano.

Sobre o rumor que Marcelo transformou em facto, convém dizer que António Costa continua dono e senhor do seu destino. Pouco importa que o Presidente entenda que deve haver eleições antecipadas em 2024, se a questão do cargo europeu se colocar, o líder do PS só depende de ter posto o país na rota certa. Se as coisas estiverem bem, se houver a perceção de que o país tem estabilidade económica e social, com emprego e investimento nos serviços públicos, a estabilidade política será do plano secundário. Costa não está nem refém de Marcelo, nem do povo, mas de si próprio e do que souber fazer com a maioria absoluta de que dispõem.

Convém também dizer que não parece possível adiar esse sonho para 2027, porque a tendência é para a reeleição nesse ano a quem conseguir o lugar dois anos e meio antes (2024). António Costa tem essa ambição, tem esse sonho europeu e essa ambição é legitima. Tem mais ou menos dois anos e meio para mostrar que a liderança do governo em Lisboa merece ser compensada com um bom emprego em Bruxelas. Primeira regra, não abuse da maioria absoluta, nem deixe que dela abuse um partido sempre sedento de mostrar quem manda.


Jornalista

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt