Corolário Trump da Doutrina Monroe

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Simón Bolívar inspirou-se em George Washington para a libertação da América Espanhola e chegou a ser uma figura popular nos Estados Unidos, ao ponto de haver vivas ao venezuelano nas festas do 4 de Julho quando se revoltou no início do século XIX contra o jugo colonial, e até uma pequena vaga de bebés batizados de Simon. Mas o bolivarianismo do século XXI, a ideologia revolucionária proclamada por Hugo Chávez após ser eleito presidente da Venezuela em 1999, causou de imediato desconfiança nos círculos de poder nos Estados Unidos, seguindo-se ao longo dos anos sanções, apoio declarado à oposição e até uma atitude dúbia em relação ao golpe falhado de 2002.

No poder depois da morte de Chávez em 2013, Nicolás Maduro nunca teve nem o carisma do patrono, nem as condições económicas favoráveis de que este beneficiou. O preço do petróleo na última década, além da queda da produção nacional, impede o governo venezuelano de ser tão generoso com os mais pobres como antes, e a base de apoio popular foi caindo. Milhões de venezuelanos emigraram, entretanto, votando com os pés, dada a degradação da economia. Há mesmo sérias suspeitas de que as eleições têm sido manipuladas, e os Estados Unidos já chegaram a reconhecer Juan Guaidó, então presidente do parlamento, como presidente da Venezuela, deslegitimando na época Maduro, isto durante o primeiro mandato de Donald Trump. Voltaram, ainda no tempo de Joe Biden na Casa Branca, a reconhecer como presidente um rival de Maduro, Edmundo González, agora no exílio. É conhecida também a ligação pessoal de Trump a Marina Corina Machado, líder da oposição e Nobel da Paz em 2025, prémio que dedicou ao presidente americano, assim que soube que lhe fora atribuído.

Acusando Maduro de envolvimento com o narcotráfico, Trump deslocou meios navais para as proximidades da Venezuela e deu ordens para ataque a lanchas suspeitas. Pelo meio, multiplicaram-se as ameaças de intervenção, que agora se concretizaram. Com Trump a anunciar que Maduro foi capturado, a situação faz recordar 1989, quando George Bush ordenou a invasão do Panamá para prender o presidente  Manuel Noriega, acusado de estar envolvido no comércio internacional de drogas.

Há semanas, foi divulgado um novo documento de estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. Muita ênfase foi posta no Hemisfério Ocidental, com referências óbvias à Doutrina Monroe, enunciada em 1823, quando se temia uma intervenção europeia para acabar com as repúblicas de língua espanhola e o regresso ao estatuto de colónias. No início do século XX, deu-se o Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, com uma nova interpretação, pois sucederam-se intervenções dos Estados Unidos em vários países das Caraíbas. Agora, estamos perante o Corolário Trump, cujo impacto promete ser grande, e sentir-se além das fronteiras da Venezuela , basta pensar na preocupação na Colômbia. Portugal está também preocupado, pois há centenas de milhares de portugueses e luso-descendentes na Venezuela a pensar como será o pós-Maduro.

O documento de estratégia dizia claramente que o objetivo era "controlar a migração, impedir o fluxo de drogas e reforçar a estabilidade e a segurança em terra e no mar".  Trump terá planos ambiciosos para a América Latina, a tal que Bolívar foi, pelo menos em parte, o Libertador.

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