Coragem "made in" Afeganistão

A chegada a Portugal de um grupo de 26 raparigas jogadoras de futebol das seleções jovens do Afeganistão, mais os seus familiares, é uma das boas notícias desta semana. Não perfeita, porque isso seria a permanência no seu país, a fazerem aquilo que mais gostam e na plenitude dos seus direitos. Mas excelente como prova de que o mundo tem as suas válvulas de escape e, nesse aspeto, o nosso país não pode faltar à chamada.

Embora o facto tenha sido noticiado e até objeto de reportagens televisivas, creio que merecia uma análise mais profunda, algo que provavelmente foi prejudicado pela natural azáfama da campanha eleitoral para as autárquicas.

A bem-sucedida operação de resgate envolveu muitas boas vontades, com a particularidade de o grupo ter abandonado Cabul sem saber qual seria o seu destino final. Este pormenor traz-me à mente duas palavras, aparentemente contraditórias: medo e coragem.

Medo, porque estas jovens não fogem de coisa pouca. A memória que os seus familiares mais velhos guardam do regime Talibã no Afeganistão fez acender luzes de alarme que, infelizmente, parecem não ser vãs. Para início de conversa, às mulheres volta a ser negado o direito ao desporto. A exposição da sua "intimidade", que para este movimento podem ser os olhos, a cara, os braços ou as pernas, é motivo suficiente para remeter, de novo, as cidadãs do sexo feminino à sua condição sub-humana. E para os que ousarem desobedecer, voltam as penas de apedrejamento, amputação de membros e execução, na linha da interpretação mais extrema da sharia.

Coragem, porque andaram escondidas de pouso em pouso, em constante ameaça, até que surgiu a oportunidade e, numa janela de apenas três horas, deram corajosamente a volta à sua vida e partiram sem destino conhecido. Jovens entre os 14 e os 16 anos, que num ápice vêm a vida voltada ao contrário e cortam com as suas raízes, os seus amigos, a sua escola, o seu clube. Imagino que o seu ativo mais valioso seja a capacidade de sonhar.

Há quem, entre nós, não goste de migrantes. Alguns alternam entre os mínimos do politicamente correto e a expressão de um quase-ódio pelos que chegam ao ocidente e ao nosso país, em fuga de um futuro sem futuro. A esses, recordo que estas pessoas, pela sua história de vida, detêm uma resiliência, uma capacidade de aprender e uma vontade de triunfar que faz deles um dos mais críticos ativos do futuro numa sociedade ocidental, a nossa, que tem um problema demográfico. Não perceber isto ou, mais grave, rejeitar este ativo por via do estigma, da marginalização e da soberba, é um ato de estupidez coletiva de que não nos poderíamos orgulhar.

Aquilo que eu desejaria era que estas pessoas pudessem encontrar nas suas pátrias a chave do seu futuro. Isso não tem sido possível em demasiadas latitudes e longitudes, pelo que desgraçadamente é um dado adquirido que existem e continuarão a existir ondas de migrantes. Portanto, aquilo que as nações inteligentes deverão fazer é transformar este potencial em valor, num processo controlado no espaço, no tempo e no modo. Os migrantes não precisam de piedade, nem de dinheiro, nem muito menos de guetos. Precisam de um "contrato de cidadania" individual, que pode ser um programa de educação formal ou de formação profissional, um processo de reconhecimento das suas habilitações, uma oportunidade de afirmação no desporto ou na cultura, ou uma combinação de vários destes. Nesse contrato seriam apostas duas assinaturas: a do Estado português e a da Coragem, que é o nome comum destas pessoas.

Deputado e professor catedrático

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