Conversa de tu cá, tu lá

Empresários de vários continentes juntam-se amanhã para uma Cimeira de Negócios em que não precisam de tradutor: a conversa vai ser de tu cá, tu lá, num evento que a Confederação Empresarial da CPLP faz coincidir com o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a 5 de maio.

Idioma oficial e património comum de oito Estados soberanos, o português é hoje falado por mais de 250 milhões de pessoas, é a quinta língua mais falada no mundo, a quarta mais utilizada na internet, a terceira no hemisfério ocidental e a mais falada a sul do equador.

Se em finais do século XV, quando os portugueses iniciaram a primeira globalização, o número de falantes da nossa língua não ia além do milhão, projeções atuais das Nações Unidas apontam para que em finais deste século haja mais gente a falar português em África do que no Brasil: serão perto de 500 milhões na diáspora lusófona, quase o dobro dos de hoje. Essa pátria com vistas largas e diferentes acentos - que falamos, escrevemos e cantamos - é pontuada a toda a largura do mapa-mundo, e está a crescer.

Para lá dos laços culturais e históricos que nos ligam, é imperativo de cada Estado membro da CPLP a aposta recíproca em transformar a geografia lusófona num verdadeiro mercado comum, facilitador de transações e de livre circulação - de pessoas, bens e capitais -, pondo termo a esse negócio hipócrita e por vezes corrupto que se esconde por detrás da teia burocrática na concessão de vistos para viagens, trabalho ou comércio.

É esse, justamente, um dos tópicos da reunião empresarial, amanhã, de olhos postos na Cimeira de Chefes de Estado da CPLP, marcada para meados de julho, em Luanda, onde deverá ser finalmente aprovada a livre circulação de pessoas no espaço lusófono. Este "virar de página", na história da organização que completa em breve 25 anos, ainda vai precisar da regulamentação própria de cada país, em função dos quadros legais dos vários Estados e das exigências ou limitações dos espaços territoriais em que cada um está integrado (Schengen, no caso de Portugal). Mas é um avanço.

Estudos recentes, avaliadas todas as transações, revelam que a língua portuguesa vale 17% do produto interno bruto. Mas há um enorme potencial económico ao alcance dos nossos povos: a começar nas plataformas costeiras continentais (todos tocam o mar) e nas respetivas zonas económicas exclusivas, com incomensuráveis recursos pesqueiros, biológicos e minerais marinhos.

A miragem imperial dissolveu-se há muito, mas prevalecem entre nós tiques de paternalismo e atavismos ideológicos e culturais (até na ortografia) que são, em boa medida, resultado da tensa e por vezes assimétrica relação que Portugal mantém com a sua própria memória. É preciso vencer uns e outros.

"Da minha língua vê-se o mar", escrevia Vergílio Ferreira, pronunciando a valorização da língua como ativo verdadeiramente estratégico, com futuro, e contribuindo para aproximar, nos planos económico e cultural, todas as margens deste grande mar que é também dos nossos maiores, de Pepetela a Cinatti, de Mia Couto a Germano Almeida ou João Cabral de Melo Neto. "Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo", acrescentaria Saramago, nosso Nobel da língua portuguesa.

Jornalista

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