Considerações de um pobre tolo

A esperança impele-me para o futuro; a lembrança não me deixa partir. Não vou nem fico, não me decido. E eis um pobre tolo, no meio da ponte de São Gonçalo, pasmado, a olhar as duas margens do Tâmega, um rio de verdes sombras liquefeitas"
(Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo)

Um tolo vagueia entre a esperança e a lembrança, sem saber escolher decididamente qual a margem do rio que merece a sua esverdeada sombra. Para a generalidade dos jornalistas e comentadores políticos do nosso país (com exceção, claro, do Pedro Mexia) todos os poetas são mais ou menos tolos, o que, aliás, os defende do dolo (e "só o parvo dum poeta ou um louco/que fazia filosofia/ ou um geómetra maduro/sobrevive a esse tão pouco/que está para além do escuro/ e nem a História já historia", como escrevia Álvaro de Campos/Fernando Pessoa). Hoje sinto estar com Pascoaes na ponte de São Gonçalo, em Amarante, porque fico, ao olhar para a política do meu país, como um tolo a ver pasmado um grupo de sombras liquefeitas a querer fazer o rio voltar para trás, a querer fazer o Tâmega passar a correr da foz para a nascente.

A esquerda da esquerda quer voltar a ser uma força tribunícia de protesto e de movimentação social sem compromissos com o poder e muita gente no Partido Socialista quer fazer-lhes a vontade, levando os socialistas a relembrar as benesses do bloco central e a benemérita "terceira via", que deu no que deu e é melhor não lembrar... O pobre tolo olha para o Tâmega e pensa que os nossos políticos acreditam que podem regressar ao passado onde foram felizes e que todos os problemas do presente se resolvem afinal com as soluções do passado.

A velhice pode fazer-nos desejar voltar a viver os tempos em que éramos jovens e felizes, mas só a tolice (e neste caso já não é a tolice inofensiva de um poeta, caros jornalistas) pode levar-nos a acreditar que tal é possível. Nem a troika, ai, vai voltar nem a revolução proletária, ai, vai retornar. A direita terá de convencer o eleitorado que tirar aos pobres para dar aos ricos é a solução para enriquecer o país, que a competitividade assente em salários baixos ajuda a modernizar a nossa economia e que a mão invisível virá ao nosso bolso só para favorecer os empresários produtivos e criadores de riqueza (que por certo temos) e não os especuladores do costume e aqueles que, jogada a empresa da família no casino financeiro, acabam a vida em felizes falências sustentadas por fundos nas Ilhas Virgens Britânicas. A esquerda da esquerda terá de convencer o eleitorado que derrubar um governo social-democrata e bloquear um caminho de reformas que tirou o país de uma crise gravíssima é o melhor caminho para o progresso social.

Alguns socialistas querem convencer-nos entretanto que, afinal, contra o que em tempos dizia António Costa, se pode governar à direita sem pensar como a direita. Ou até, numa versão mais arrojada intelectualmente, que se pode pensar tal qual como a direita e continuar a apresentar-se como esquerda.

Um ajudante de ministro (na feliz expressão de Cavaco Silva) do último governo de direita que tivemos, face à dramática situação social e pessoal que o despedimento de uma funcionária precária lhe iria causar, dizia-me, com espanto: "Mas temos a sorte de poder fazer um despedimento sem indemnização e você não está contente?".

Se me perguntarem por onde anda hoje esse senhor, digo-vos que, com esta especial sensibilidade, está a tratar obviamente de questões sociais. Lembra em Os Maias (sempre esse Eça fatal!) o Sr. Sousa Neto a perguntar muito sério a Carlos da Maia se existia literatura em Inglaterra, e que se revelou finalmente ser (como dizia, a rir, o João da Ega)... o diretor-geral da Educação Pública!

O pobre tolo debruça-se para o Tâmega e pensa como é verdade que ninguém aprende nada com a história e que estamos condenados a repetir os mesmos erros num eterno retorno do mesmo que nos irá levar liquefeitos pela corrente do Tâmega em direção ao Douro, pensando nós que estamos a regressar à conhecida segurança das fontes nas montanhas da nossa juventude. Um bloco central forma-se entretanto no rio: é um mouchão de lama onde iremos encalhar para nos despedirmos de vez da esperança na ilusão da lembrança.

Diplomata e escritor

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