Comunicar: a vida enquanto obra de arte
Vamos olhar para a comunicação como um movimento orgânico. Mais do que uma teoria, vamos assumir que a comunicação adquire diversas formas na sua relação com o mundo.
Inquieta-se e gosta de inquietar. Constrói uma teia de possíveis interpretações, e faz dessa construção uma arte de viver, com generosidade e graça - como diria o escritor James W. Carey.
A comunicação tem sempre múltiplas leituras sobre o presente, questiona-o. Antecipa-se.
De facto, a comunicação é muitas coisas, situa-se num campo interdisciplinar e, por isso, não é fácil classificá-la.
A partir daqui qualquer conceção mais despojada sobre a comunicação apresentar-se-á frágil. Por certo, será consensual admitir a sua complexidade, pois representa um vetor de infinitas direções. O desejo por comunicar de forma marcante acaba por nos sugar, transformando-se, por outro lado, numa relação profundamente desafiadora.
Podemos assumir que a comunicação é a construção de uma ideia a partir de contextos originais ou abstratos. Está à frente do seu tempo e - recorrendo a uma expressão comum - quando é encostada contra a parede e lhe perguntam "e agora, o que é que vais fazer?", a comunicação faz sempre qualquer coisa.
Gera novas narrativas, transcende linguagens e cria novas entidades. Tal como sucede na metamorfose em que a resistência ao mundo dá origem a outra vida. A comunicação combate o seu desaparecimento a partir da criatividade e, à medida que nos apercebemos da sua dimensão e densidade, concluímos que a sua matéria-prima é o conhecimento.
Verificamos, pois, que tanto a comunicação como o conhecimento estabelecem uma relação de correspondência entre si, mas é a curiosidade que lhes precede e irrompe. Esta ideia remete-nos para um propósito absolutamente vibrante que torna o caminho - o do exercício de saber comunicar - desejável. Porquê? Implica o cruzamento com outros: o do cinema, o da música, o dos livros e da arte.
A comunicação rodeia-se de pessoas e são elas que a criam.
É por isso que deste movimento resultam exemplos de vida que são autênticas obras de arte - como se nos apetecesse tê-las sempre por perto.
Reparem na última biografia de Natália Correia, escrita por Filipa Martins. Tem o título Dever de Deslumbrar. Será legítimo apropriarmo-nos deste aforismo e o usarmos para definir aquilo que é o objetivo da comunicação.
Sim, a comunicação tem o dever de deslumbrar.
E voltamos às formas.
Quando pensamos em homens e mulheres que se diferenciam, observamos que a forma como comunicam é um verdadeiro blow-up.
Podemos começar por Natália Correia: comunicava de forma intencionalmente inflamada e provocadora. Usava o seu pensamento como gatilho para uma aproximação rápida, abordando, assim, questões relacionadas com o papel da mulher na sociedade e na política, e também com a cultura. Foi uma mulher indissociável da liberdade, sempre altiva e a fazer frente ao conservadorismo do Estado Novo.
Umberto Eco explica em Psicologia do Vestir que "o vestuário é comunicação".
David Bowie, expressou este pensamento ao interpretar várias narrativas através das personagens que encarnava, trazendo, dessa forma, o seu imaginário para o mundo. Tinha sempre linguagens inovadoras, artísticas e, mais importante, implicativas de experimentação e de interrogação. Era alguém que se colocava do outro lado do espelho a conversar connosco. David Bowie foi e continua a ser uma inspiração para artistas como a Bjork, para a moda e para o design.
John Berger, crítico de arte e autor de "Modos de Ver", mostra-nos como a estética visual intervém na comunicação e na forma como percecionamos o mundo.
Ralph Nichols, no seu livro Are You Listening diz outra coisa interessante "a comunicação é a ponte entre o Eu individual e a Humanidade; devemos, por isso, construí-la com toda a prudência e generosidade". Ou seja, a ponte de que nos fala Ralph Nichols constrói-se precisamente a partir do conhecimento do Eu, do Outro, e do Mundo.
Tudo isto nos confere a estética de pensamento e um modo de comunicar que pode ou não ser um acontecimento na vida de alguém.
Bem vistas as coisas, a comunicação pode ser cada uma das mulheres Destemidas de Pénélope Bagieu que ousaram mudar o mundo. Podemos ser nós, portanto.
Explicado de forma simples: a comunicação é uma luz que nunca se apaga e nos leva sempre a qualquer lado, como na música dos Smiths.
Marketing and Business Development Specialist, Cuatrecasas

