Em política pública, poucas coisas são tão perigosas como confundir uma métrica com a realidade. Quando um indicador produz conclusões manifestamente erradas, o problema não está nos factos, mas na forma como são medidos. É isso que acontece quando se afirma que o Alentejo se tornou uma região muito mais rica, como foi reportado recentemente. Esta classificação não resulta de uma decisão nacional, mas da aplicação automática dos critérios da política de coesão da União Europeia, baseados quase exclusivamente no PIB per capita regional.O salto estatístico do Alentejo explica-se quase integralmente pelo desempenho de Sines. Entre 2020 e 2022, o PIB regional cresceu acima da média nacional, aproximando-se dos 75% da média europeia em paridades de poder de compra, o limiar que separa as regiões menos desenvolvidas das regiões em transição. Esta evolução, porém, não traduz uma transformação estrutural do território. Resulta sobretudo do aumento do valor acrescentado gerado por grandes investimentos industriais e energéticos concentrados num único ponto do mapa e pela incorporação administrativa da Lezíria no Oeste e Vale do Tejo, reduzindo a população estatística do Alentejo e inflacionando artificialmente a riqueza média regional.O impacto nacional de Sines é inegável. O porto, a energia e a indústria aí localizados são ativos estratégicos para Portugal e para a autonomia económica europeia. O erro surge quando esse dinamismo localizado é projetado, por simples agregação estatística, sobre um território vasto, envelhecido e profundamente desigual. A média sobe, mas a realidade regional não acompanha.A maior parte do Alentejo continua marcada por rendimentos baixos, perda demográfica acelerada, superior a 6% na última década, envelhecimento estrutural e fraca densidade empresarial. Em vários concelhos, o rendimento mediano disponível permanece cerca de 30% abaixo da média nacional. Nada disto é captado pelo PIB per capita, um indicador que não mede coesão, não reflete a distribuição da riqueza, nem avalia a qualidade do emprego criado. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal. Em vários Estados-membros, regiões com grandes polos industriais, financeiros ou administrativos surgem artificialmente ricas nas estatísticas. O caso extremo é o de Bratislavský kraj, na Eslováquia, cujo PIB per capita ultrapassa 180% da média da União Europeia, apesar de grande parte do país permanecer muito abaixo dos 75%. O Alentejo representa uma versão periférica deste fenómeno. A raiz do problema reside nos critérios da política de coesão. A União Europeia continua a basear a elegibilidade dos territórios quase exclusivamente no PIB per capita, ignorando desigualdades internas, fragilidade demográfica e capacidade real de desenvolvimento. Assim, uma região vulnerável pode perder metade dos apoios que recebeu no último quadro financeiro comunitário, precisamente por acolher um investimento estratégico de grande escala.Mais preocupante do que o erro estatístico é a resposta política. Perante resultados que reduzem o apoio ao Alentejo com base em médias artificiais, Bruxelas insiste em defender o método em vez de o corrigir. Esta rigidez tecnocrática afasta a política de coesão da realidade que deveria servir.A coesão não existe para produzir narrativas estatísticas convenientes, mas para promover convergência real. Quando trata assimetrias internas como sinais de sucesso económico, trai o princípio de solidariedade que a justifica. Não é o Alentejo que deixou de precisar de coesão. É o modelo europeu que deixou de ver o território para lá dos números. Professor convidado UCP/UNL/UÉ