Como Tordos e o Obscurantismo

Marie Bonaparte-Wyse, pelo casamento, Ratazzi, visitou Portugal no último quartel do século XIX e escreveu um interessante livro intitulado Portugal au-vol d'oiseaux, traduzido por Portugal de Relance. A sua obra mereceu uma resposta indignada de Camilo Castelo Branco e de outros intelectuais portugueses. No entanto quem a leia hoje não deixará de admirar a princesa pela sua perspicácia na compreensão da realidade portuguesa.

Depois de desfiar factos e estatísticas concluiu que Portugal conseguiu "converter a ignorância pública em instituição de Estado".

Vem esta introdução a propósito da atuação do Ministério da Saúde relativamente à retirada da base de dados da mortalidade em Portugal, impedindo os portugueses de tentar perceber as causas da excessivamente mortalidade que se tem verificado no nosso país desde o início do ano - mais de 10 mil portugueses mortos todos os meses.

Esta base de dados estava a ser analisada com minúcia pelo jornalista Pedro Almeida Vieira, um dos grandes jornalistas de investigação portugueses, com resultados absolutamente contrários à narrativa oficial.

Por exemplo, Pedro Almeida Vieira relata com base em números públicos que, em 2020 e 2021, a pandemia implicou o internamento de 57 mil pessoas, mas que essa ocasião foi aproveitada para retirar quase 280 mil doentes dos hospitais. A grande "sobrecarga" da narrativa oficial aconteceu nos anos em que os doentes internados diminuíram em mais de 200 mil! Que patranhas nos contam.

Mas, essencialmente, este jornalista procurava perceber as causas da extraordinária mortandade que se tem verificado este ano. Os seus artigos são exemplos de que o bom jornalismo isento, factual e sem peias ainda existe em Portugal.

Perante uma avaliação que põe em causa a propaganda da temida máquina oficial, o Ministério da Saúde retirou do portal da Transparência a base de dados substituindo-a por dados inócuos. Curiosamente pouco depois o jornalista é visado pela Entidade Reguladora para Comunicação Social (ERC), num inusitado ataque pessoal.

Por outro lado do lado do Governo e da Ministra não existem explicações para esta estranha alta da mortalidade em Portugal.

Quando o país devia estar mobilizado para perceber este grave excesso de mortalidade, o Ministério retira a base de dados que poderia servir para deslindar o mistério.

Eis como se promove a ignorância. Eis como se esconde a cabeça na areia. Eis a melhor solução para que continuem a ocorrer mortes que poderiam ser evitáveis se conhecidas as causas. Eis como se implementa a censura, o medo da Verdade, a crença na infalibilidade, maior que a do Papa que se limita às questões de fé, dos governantes.

Eis como o Obscurantismo continua, mais de um século depois de Maria Ratazzi, a "converter a ignorância pública em instituição de Estado".

É, pois, importante que o Governo reponha a base de dados e dê explicações sobre a alta da mortalidade. Para que não fique a suspeita de que tem culpas a esconder.

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