"Como pode a catástrofe alguma vez vencer-nos?"

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O meu irmão partiu na segunda vaga, em novembro. Tinha 50 anos e um processo oncológico, descoberto meses antes. A covid-19 acelerou a gravidade da doença de tal forma que, em menos de uma semana, sucumbiu.

Nos meses anteriores, os meus pais viram-no apenas uma vez, nos anos dele, em setembro - um aceno da janela. Nenhum de nós arriscava infetá-lo.

Quando piorou, fui finalmente vê-lo - arrisquei para lhe dar esperança. Entretanto, quatro dias depois, tivemos de o levar à urgência do IPO do Porto, por causa das dores. Por protocolo, fizeram-lhe o teste: positivo. Em menos de 48 horas o sofrimento aumentou. O INEM aconselhou o hospital. No dia seguinte, a notícia definitiva.

Um funeral covid. Homens totalmente forrados a plástico carregam a urna selada. Velório de uma hora, antes da cremação. Horas depois, uma breve cerimónia para deposição das cinzas na campa da família. Uma dor aguda. Seguiu-se a quarentena de duas semanas, apesar de dois testes negativos. Imobilidade e devastação

Ver a velocidade de destruição física e familiar provocada pelo vírus reforçou ainda mais a minha consideração pelos especialistas que pediram para não haver "Natal". Citei aqui no DN o matemático Henrique Oliveira, do Técnico. "Estratégia ioiô", dizia ele. Estávamos ainda a tempo.

Tudo isto foi dito pelos especialistas: a covid-19 tem um padrão - famílias (norte-sul-este-oeste), à mesa, sem máscara, geram casos exponenciais. "O vírus não tem pernas. Só vai onde o levamos", disse alguém, há muitos meses.

É verdade que seria muito difícil limitar legalmente o número de pessoas em cada casa, mas podia ter-se impedido as deslocações regionais. Os números mostravam como tínhamos um país em mobilidade total no período pré-natalício. Como não olhar para o radar em plena guerra? Qual a urgência de se abrirem as escolas a 4 de janeiro? - o "covidário", como lhe chamou nesta semana o virologista Pedro Simas.

Ontem chegámos aos 15 mil casos. Resta-nos ver o problema em perspetiva. No documentário (a que estive ligado) As Febres do Século, exibido pela RTP2 na quarta-feira passada, mostra-se como Portugal chegou ao fim da I Guerra Mundial + pneumónica com uma esperança média de vida de... 20 anos. O efeito demolidor da doença gerou 65 mil mortos, ou seja, 1% da população portuguesa (éramos à época 6,5 milhões apenas). Existiam apenas dois grandes hospitais - um em Lisboa e outro em Coimbra. O país era assistido por unidades das Misericórdias ou de outras organizações de cariz social, muitas delas de pequeníssima dimensão.

Hoje não estamos nesse cenário, mas temos de ter a humildade de aceitar que não dominamos o vírus com intenções. O pneumologista Filipe Froes tem uma comparação que nos situa no tempo: "Mais de 60% de biomassa do planeta Terra é composta por formas de vida não-humanas, nomeadamente bactérias e vírus. Se estabelecermos o tempo de vida do planeta - provavelmente 4,6 mil milhões de anos - e o reduzirmos a uma hora, as bactérias e vírus estão cá desde o minuto 17 e os humanos chegaram no último décimo de segundo."

Estamos espantados com as mutações? Queremos vencer esta batalha sem antecipação?
É a hora da ciência: dos melhores - como Manuel Carmo Gomes e a equipa do Instituto Ricardo Jorge. É preciso dizer-se que o problema não está nem no modelo nem no conhecimento apresentado no Infarmed. Está em ouvirmos seletivamente as conclusões que pretendemos.

PS. Título: Amanda Gordon, na tomada de posse de Joe Biden.

Jornalista

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