Como implementar a nova política

A configuração das relações no Médio Oriente nunca esteve dependente apenas dos países da região. Sempre houve, e continuará a haver, o elemento correspondente ao nível de envolvimento dos EUA, que decide várias questões regionais. E quando há uma mudança de governo em Washington, é preciso levar em conta as mudanças mais profundas no estado de espírito americano. É evidente que nada disto é novo, mas a principal questão é sempre até onde poderão ir os EUA e o que permanecerá no nível das declarações.

Para o governo Biden, a principal questão que precisa de ser tratada é o futuro do Irão. Já deixaram bem claro que o regresso ao acordo nuclear é um objetivo definido, mas não é tão fácil assim atingi-lo. Todas as outras questões, como a normalização das relações israelo-árabes ou o fortalecimento da soberania israelita sobre a totalidade de Jerusalém, estão agora na segunda fila, atrás da procura de uma posição a longo prazo para o Irão na região, uma posição que seja segura para os seus vizinhos.

Terá de haver duas fases na resolução deste problema. A primeira é o período preparatório, na qual eles terão de instaurar a calma entre todos os inimigos do acordo iraniano, e a segunda será iniciar as negociações sobre as partes adicionais do antigo acordo que terão de lhe ser acrescentadas.

Há alguma coisa para toda a gente, Washington sabe que tem de ser "generoso". Para Israel, há um forte compromisso dos EUA em impedir o estabelecimento do Irão como um interveniente importante na Síria. O recente ataque americano a alvos pró-iranianos naquele país é uma prova não apenas de que os EUA os podem atacar diretamente, mas também de que Israel tem aprovação para fazer o mesmo quando quiser. Isso significa que o potencial novo acordo com o Irão não será feito à custa da segurança de Israel. Além disso, eles deixaram muito claro ao Irão que qualquer novo acordo terá de ter o sério compromisso de Teerão de deixar a Síria o mais rapidamente possível e não desestabilizar nenhum outro país da região.

No caso da Arábia Saudita, como país que se opôs ao anterior acordo com o Irão, o presidente Biden acaba de enviar uma mensagem em que o nível de crítica ao comportamento do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (chamado MBS), no caso do assassínio do jornalista Adnan Khashoggi no seu consulado em Istambul, vai depender da sua cooperação no futuro. As novas sanções dos EUA contra alguns cidadãos sauditas, envolvidos no homicídio, deixam MBS fora de perigo por enquanto.

É um grande problema para a nova administração americana e a sua reivindicação pela proteção da liberdade e da democracia em todo o mundo (exceto no sancionamento de MBS, por causa dos "interesses mais altos"). Os sauditas podem esperar mais problemas com o seu príncipe herdeiro, devido ao seu apoio declarado ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Os israelitas fizeram o mesmo, mas não pertencem ao mesmo "clube de diversão" de Donald Trump, e a nova administração americana sabe bem onde traçar o limite que não será ultrapassado na relação com Israel.

Na segunda fase, todos os outros participantes terão de ser convencidos a aceitar alguns novos elementos do possível acordo com o Irão e, em seguida, o Irão terá de fazer o mesmo, a fim de obter os seus fundos de volta vindos de todo o mundo. A ação necessária de cada participante será claramente conhecida, e o preço do novo acordo também.

Pode-se dizer que toda esta estratégia é bastante complicada, mas é alcançável, se nos focarmos nas experiências anteriores. Se a necessidade do que se consegue alcançar com esse tipo de acordo é maior a cada dia, é preciso diminuir o preço também a cada dia. A situação económica no Irão é muito difícil, a epidemia do coronavírus está a cobrar o seu preço adicional e não há muito tempo para a recuperar. Ao mesmo tempo, tudo funcionará se as duas fases de preparação forem bem-sucedidas.

É óbvio que os estrategas da Casa Branca e do Departamento de Estado sabem muito sobre o Médio Oriente. Essa é a grande diferença em relação ao governo anterior, que procurou incluir aquela região na campanha pré-eleitoral nos EUA, mais do que tentar alcançar alguma coisa duradoura. Tinha de falhar. A nova administração teve de começar a procurar o equilíbrio que se perdeu quase totalmente nos últimos anos. Eles ainda têm tempo para avançar passo a passo, mostrando a todos os participantes regionais onde os levará o único caminho possível. Quem se recusar a embarcar no seu comboio será deixado numa das estações.

Uma coisa é certa, o Médio Oriente é a coisa mais complicada que existe. Apenas um facto - o recente ataque militar dos EUA pode ser descrito da seguinte forma: os EUA atacaram um grupo pró-iraniano iraquiano na Síria. Será que isto soa suficientemente claro?


Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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