Como financiar as infraestruturas verdes

Para estimular o desenvolvimento e combater as alterações climáticas, as economias dos mercados emergentes e em desenvolvimento (EMED) necessitarão, durante as próximas décadas, de investimentos colossais em infraestruturas verdes. Mas muitos destes países dispõem de um espaço orçamental limitado, especialmente depois dos choques dos últimos anos. Perante esta situação, para satisfazermos as necessidades de infraestruturas das EMED, temos de mobilizar as poupanças privadas excedentárias das economias avançadas. A questão é saber como isso pode ser feito.

O primeiro passo para construir uma ponte entre as poupanças privadas e o investimento em infraestruturas nas EMED consiste em compreender as necessidades dos investidores. Os investidores institucionais, como quaisquer investidores noutros tipos de dívida e de capital, têm os seus próprios incentivos, restrições e objetivos, que condicionam as distribuições dos seus fundos, nomeadamente quanto aos tipos de projetos a apoiar (instalações novas vs. instalações recuperadas) e às fases do ciclo do projeto (desenvolvimento, construção ou operação). A cobertura inadequada dos riscos, a falta de dados e a heterogeneidade das estruturas dos projetos, dos ambientes regulamentares e das normas contratuais podem todos funcionar como barreiras ao investimento.

O desafio consiste em definir "oportunidades de investimento atraentes" e de lhes fazer corresponder investidores de uma forma mais sistemática. Será central para este esforço a disponibilização de uma gama alargada de produtos de investimento bem estruturados e personalizados para os vários tipos de investidores institucionais e os seus respetivos perfis de risco/retorno. Por exemplo, os investidores institucionais (como os fundos de pensões) poderão estar mais inclinados a participar nas fases iniciais de um projeto (prévias à operação) se os riscos de refinanciamento estiverem cobertos e se o risco de construção estiver previsto.

O risco cambial constitui um outro desafio para os investidores nas EMED. Aqui, as agências de crédito à exportação poderão ajudar, apesar de terem frequentemente custos elevados.

A escassez de instrumentos financeiros adequados e os custos e complexidade dos instrumentos disponíveis constituem outra barreira potencial ao investimento em infraestruturas nas EMED. Os instrumentos de rendimento fixo, nomeadamente as obrigações (por projeto, municipais, sub-soberanas e obrigações verdes, além das sukuk (obrigações que respeitam a Sharia, usadas nas finanças islâmicas) e os empréstimos (crédito direto e crédito ao coinvestimento para projetos de infraestruturas e empréstimos sindicados para projetos) podem ajudar a resolver este problema, já que poderiam atrair um público mais alargado de investidores institucionais nas EMED.

As instituições financeiras multilaterais têm um papel importante a desempenhar, na canalização de capitais privados para projetos de longo prazo que podem fomentar o desenvolvimento em países e setores considerados de risco elevado pelos mercados de capitais. Ao proporcionarem financiamento, garantias, ou ambos, estas instituições podem diminuir o risco dos projetos e atrair o investimento privado. Também podem, através de consórcios, trazer parceiros para operações específicas.

Por seu lado, o setor privado dispõe de um conjunto de instrumentos com os quais pode gerir o risco. Por exemplo, as empresas podem usar instrumentos de transferência de risco e de reforço de crédito, que são propostos por bancos nacionais e multilaterais para o desenvolvimento. Incluem-se aqui garantias, apólices de seguros e mecanismos de cobertura segundo os quais, mediante um custo, um fornecedor concorda em compensar o concessionário (ou os seus credores) em caso de incumprimento ou de perda decorrentes de uma circunstância específica.

O seguro contra riscos políticos é especialmente importante nesta área. Determinados setores, como as telecomunicações ou a eletricidade, são mais suscetíveis à volatilidade regulatória ou aos efeitos da pressão política (nomeadamente sobre os preços). Isto implica a necessidade de um escrutínio reforçado por parte dos investidores em infraestruturas e de mecanismos personalizados para atenuação dos riscos.

A estrutura financeira de um projeto é essencial. A experiência mostra que uma combinação diversificada de financiadores num projeto, que inclua bancos e proprietários nacionais, internacionais e multilaterais, pode impedir a intervenção política e funcionar como um amortecedor contra eventuais choques. E assim como as alianças estratégicas com entidades estrangeiras proporcionam aos intervenientes locais uma salvaguarda contra a intervenção política, as parcerias com empresas locais podem ajudar um operador de infraestruturas a transcender o rótulo de "investidor estrangeiro".

Na transformação da atual fartura de poupança e liquidez no tão necessário investimento em infraestruturas verdes nas EDEM, tanto o setor público como o privado têm papéis importantes a desempenhar. Os decisores políticos têm de aumentar a transparência dos quadros legais e de conseguir estabilidade política e regulatória, reconhecendo que o setor público acabará por suportar os elevados custos transacionais suportados pelos investidores privados ao canalizarem recursos financeiros para as EDEM.

Os investidores institucionais e outros intermediários financeiros, além das instituições financeiras não-bancárias, destacam frequentemente a falta de um canal de projetos prontos para o investimento. Para melhorar as suas opções, o setor público deveria responsabilizar-se mais pelo desenho de projetos em situações caracterizadas por uma complexidade significativa ou pelo risco regulamentar, especialmente nos casos em que os riscos forem mais difíceis de identificar e de medir antecipadamente. Os custos deste processo poderão ser em grande medida recuperados quando se criarem parcerias público-privadas (como as concessões). O planeamento e a definição de prioridades por parte do setor público são essenciais.

Mas os investidores privados também têm de adotar um papel mais ativo, nomeadamente aproveitando as ferramentas para gestão do risco à sua disposição. Ajudaria a existência de mercados e instrumentos financeiros sofisticados e desenvolvidos, por permitirem que os agentes financeiros assumam riscos alinhados com as suas apetências e capacidades.

Não será fácil. Mas com estes elementos de base poderemos construir a infraestrutura mais importante de todas: a ponte que ligará as poupanças dos países avançados às necessidades de financiamento das EDEM.

Otaviano Canuto, ex-vice-presidente e diretor executivo do Banco Mundial e diretor executivo do Fundo Monetário Internacional, é membro sénior não-residente da Brookings Institution e membro sénior do Centro de Políticas para o Novo Sul.

Karim el Aynaoui, presidente executivo do Centro de Políticas para o Novo Sul, é vice-presidente executivo da Universidade Politécnica Mohammed VI e reitor da sua Faculdade de Governança, Economia e Ciências Sociais.

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