Como dissuadir um bolsonarista?

"É fácil", responderá um leitor português à interrogação do título, dadas as provas diárias de incompetência de Bolsonaro, causando milhares de mortes evitáveis na pandemia; a maneira despudorada como o Planalto distribui dinheiro por deputados corruptos para se salvar de impeachment; ou o aparelhamento da polícia para esconder as fraudes da famiglia, entre tantos outros motivos.

Não é, não. Delírio coletivo, na era da estupidificação por rede social, é coisa séria.

Para começar, uma parte dos 30% de brasileiros que ainda o aprovam é irredutível: aquela oligarquia que deseja no Planalto seja quem for, pode até ser um apaixonado por torturadores, desde que trabalhe para manter o fosso entre milionários e miseráveis, o invencível tumor brasileiro.

Mas e os bolsonaristas pobres, remediados, com contas para pagar, a esmagadora maioria, não se consegue trazê-los à razão?, perguntará o leitor.

Não se convence essas pessoas só argumentando que o primogénito do presidente, por anos a fio, desviou salários de assessores, lavou o produto do roubo numa loja de chocolates e comprou imóveis em cash?, continuará a questionar. E que outros políticos do clã protagonizaram esquema semelhante, envolvendo mais de 100 assessores amigos, chegando um deles, escondido num escritório do advogado presidencial, a passar 21 cheques em nome da hoje primeira-dama?

Nem lembrando que até o incensado Sérgio Moro se demitiu do governo acusando o presidente de aparelhar polícia federal, procuradoria-geral e agência brasileira de inteligência para salvar a prole?

E que aqueles deputados investigados na também incensada Lava Jato por assaltarem os cofres públicos, que o candidato Bolsonaro jurou combater, devem ter direito a um ou dois ministérios extra oferecidos pelo presidente Bolsonaro para não abrirem impeachment?

Nem sequer explicando que os 230 mil brasileiros mortos por covid seriam hoje muito menos não tivesse o presidente falado em gripezinha, gasto fortunas num remédio ineficaz, demitido dois ministros médicos, promovido um general paraquedista que se esqueceu de comprar agulhas e seringas, boicotado a chegada de uma vacina por ter sido comprada por um rival político e feito campanha contra a vacinação?

Não... Não é fácil porque delírio coletivo, sobretudo na era das correntes de Whatsapp, é coisa mesmo muito séria.

A réplica do bolsonarista comum é em modo automático: envolve desculpas paternalistas - "ele é espontâneo, fala o que pensa" -, conceitos improváveis - "está lá por vontade de Deus!" -, alusões ao último refúgio dos patifes - "ele é um patriota" - ou ataques definidores de carácter - "você preferia quem, o quatro dedos?", a propósito de deficiência de Lula.

Perante o delírio coletivo, portanto, só usando método de psiquiatra: "Não os contrarie."

Uma solução retórica possível perante um bolsonarista é, pois, esta. "Sim, com o Mito no poder está a acabar a pouca-vergonha dos programas sociais a garantir casa própria aos pobres, porque quem não é rico tem é de pagar aluguer! E a história das famílias com os primeiros representantes nas universidades em gerações? Já até empregadas domésticas, filhas de empregadas, netas de empregadas, cursavam Medicina! Mais: com o dólar a vergonhosos dois reais, ou menos, há uns anos os aeroportos andavam cheios de pobres, suados, a viajar para fora. Com os valores exorbitantes de agora, avião voltou a ser privilégio de milionário."

Talvez resulte...

Correspondente em São Paulo

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