Como despertar o interesse dos jovens pela carreira militar?

Uma reflexão a partir de entrevistas a jovens entre os 20 e os 25 anos.
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Nos últimos anos, tem-se tornado evidente a diminuição do interesse dos jovens pela carreira militar. Para compreender melhor este fenómeno, foram ouvidos vários jovens, com idades entre os 20 e os 25 anos, com diferentes percursos académicos e profissionais. As suas respostas revelaram não apenas um afastamento da instituição militar, mas também um conjunto de perceções, expectativas e valores que ajudam a explicar esta realidade e que podem indicar caminhos para a inverter.

O que dizem os jovens?

Uma das ideias mais recorrentes nas entrevistas foi a falta de identificação com a carreira militar. Muitos jovens afirmam que “não se reveem” na imagem tradicional das Forças Armadas, associando-a a uma rigidez excessiva, a uma hierarquia inflexível e a uma reduzida liberdade individual. Para uma geração que valoriza a autonomia, a criatividade e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, esta perceção funciona como um forte fator de afastamento.

Outro ponto frequentemente referido foi a escassa visibilidade das oportunidades reais oferecidas pela carreira militar. Vários entrevistados admitiram desconhecer as especializações existentes, as possibilidades de progressão, a formação técnica e académica ou mesmo as saídas profissionais após o serviço militar. Para muitos, o imaginário resume-se ao combate ou a funções exclusivamente operacionais, o que não corresponde à diversidade atual das Forças Armadas.

A questão financeira surgiu também como uma preocupação relevante. Alguns jovens consideram que os salários iniciais não são suficientemente competitivos quando comparados com o setor privado, sobretudo tendo em conta o grau de exigência física e psicológica, bem como a disponibilidade permanente associada à profissão.

Por fim, tornou-se evidente o peso de um certo distanciamento simbólico, nomeadamente a ideia de que a carreira militar pertence a “outra geração”. Vários jovens referiram que os seus pais e avós tinham uma relação mais próxima com o serviço militar, enquanto eles próprios cresceram num contexto de paz prolongada, no qual a necessidade das Forças Armadas lhes parece abstrata ou distante

Então como colmatar este desinteresse?

Para além das estratégias já referidas, muitos dos jovens entrevistados defenderam a necessidade de uma aproximação mais precoce entre a instituição militar e a sociedade civil, começando desde os primeiros anos de escolaridade.

A partir das opiniões recolhidas, torna-se claro que colmatar a falta de interesse dos jovens pela carreira militar exige mais do que campanhas pontuais de recrutamento. É necessária uma estratégia sustentada de aproximação cultural e comunicacional.

Em primeiro lugar, importa modernizar a narrativa sobre a carreira militar, mostrando que as Forças Armadas não são apenas um espaço de disciplina, mas também de aprendizagem, inovação tecnológica, trabalho em equipa e desenvolvimento pessoal. Áreas como a ciberdefesa, a engenharia, a saúde, a logística, a comunicação ou o apoio humanitário devem ser mais visíveis e comunicadas numa linguagem próxima dos jovens.

Em segundo lugar, foi sublinhada a importância do contacto direto. Experiências práticas, como dias abertos, testemunhos de militares jovens e uma presença ativa em escolas, universidades e plataformas digitais, podem contribuir para quebrar estereótipos e humanizar a instituição.

Uma das propostas mais consensuais entre os entrevistados foi a introdução de uma disciplina de caráter militar ou de defesa nacional no currículo escolar, logo a partir do 1.º ciclo. Segundo estes jovens, o contacto precoce permitiria desmistificar a profissão, explicar de forma pedagógica o que são as Forças Armadas, quais as suas missões, valores e áreas de atuação, e combater estereótipos antes que estes se consolidem. Não se trata de promover o recrutamento infantil, mas sim de formar cidadãos informados e conscientes do papel das instituições militares numa sociedade democrática.

Associada a esta ideia, surgiu também a proposta de ocupação parcial dos tempos livres durante as férias escolares através de estágios ou programas de curta duração em unidades militares. Estas experiências, de caráter voluntário, permitiriam aos jovens um contacto direto com o meio militar, as suas rotinas, exigências e espírito de equipa, contribuindo para uma visão mais realista e próxima da profissão.

Outra dimensão fundamental reside na valorização do percurso individual. Os jovens entrevistados revelam maior recetividade quando a carreira militar é apresentada como uma etapa de aquisição de competências transferíveis, e não como um compromisso vitalício. Reconhecer e comunicar valências como a liderança, a resiliência e a gestão de crises permite tornar esta opção mais apelativa e, eventualmente, estratégica no desenho das trajetórias profissionais contemporâneas.

Os jovens entrevistados foram também críticos em relação ao atual Dia da Defesa Nacional, considerando que, na sua forma atual, não é motivante nem suficientemente envolvente para a maioria dos participantes. Muitos referiram que a experiência é vivida como uma obrigação pontual, com pouco impacto real na compreensão da carreira militar ou no despertar de vocações. Repensar este dia, tornando-o mais interativo, prolongado no tempo ou integrado num percurso educativo mais amplo, foi apontado como uma oportunidade que poderia ser mais bem aproveitada.

Por último, não pode ser ignorada a necessidade de condições atrativas e transparentes, tanto ao nível salarial como no equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Demonstrar que a instituição está atenta às mudanças sociais e disposta a adaptar-se é essencial para ganhar a confiança das novas gerações.

A falta de interesse dos jovens pela carreira militar não resulta de rejeição, mas sobretudo de desconhecimento, distanciamento e mudança de valores. As entrevistas realizadas mostram que existe espaço para uma reaproximação, desde que as Forças Armadas saibam ouvir, comunicar e evoluir. Colmatar este desinteresse implica falar a linguagem dos jovens, reconhecer as suas preocupações e mostrar que a carreira militar pode ser, também, um caminho moderno, relevante e alinhado com os desafios do século XXI.

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