Como contrariar a fadiga pandémica que sentimos?

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Estamos há quase um ano a viver uma realidade que, numa fase inicial, e por ser uma situação nova e desconhecida, potenciou elevada ansiedade, medo e incerteza. Era uma situação estranha que nos obrigou a todos a alterar de forma drástica os nossos hábitos e comportamentos, na esfera pública e privada. Aprendemos a controlar o impulso de correr para abraçar alguém, a manter distância física e a diversificar as formas de comunicação. Aprendemos ainda a trabalhar de pantufas e a substituir o contacto visual pelos quadradinhos no ecrã do computador.

Mas são já muitos meses. E quando somos expostos a situações de elevado stress durante períodos de tempo muito prolongados, pode surgir um sentimento de sobrecarga, associado a um estado permanente de hipervigilância e cansaço. É a chamada fadiga pandémica.

Devido a esta fadiga, a nossa perceção de risco associada à covid-19 pode diminuir, levando-nos a descurar algumas medidas de proteção. Por isso, muitas pessoas saem de casa sem necessidade, resistem em usar a máscara e adotam outros comportamentos que as colocam a elas, e aos outros, em perigo. Observa-se um processo de habituação ou dessensibilização.

E o que significa isto?

Imaginemos que vamos assistir a um filme de terror. Na primeira vez que o vemos, assustamo-nos, gritamos e o nosso coração dispara. Podemos sentir medo ou mesmo pânico. Agora vamos imaginar que assistimos ao mesmo filme duas vezes. É natural que ainda possamos sentir-nos assustados e gritar em algumas cenas. Mas muitas outras tornam-se já previsíveis. Ora, se virmos o mesmo filme vezes sem conta, habituamo-nos. E os estímulos que antes nos faziam sentir medo começam agora a ser-nos indiferentes. Estamos dessensibilizados.

Este processo que, segundo um estudo da Organização Mundial da Saúde, atinge já cerca de 60% da população permite-nos compreender a dificuldade que tantas pessoas sentem agora em cumprir as regras. Mas, mais do que compreender, é preciso agir no sentido de inverter este processo. Não numa lógica de induzir pânico ou terror, mas através de uma comunicação da realidade adequada a diferentes grupos-alvo. A informação que se destina às crianças e aos jovens, por exemplo, deve ser feita de uma forma diferente daquela que se destina aos adultos.

Que tal usar as tecnologias que eles tanto adoram como veículo de informação? Um vídeo de TikTok difundido por um influencer teria certamente maior eficácia do que vinte noticiários seguidos. Algo transmitido através de jogos muito famosos como o Fortnite, por exemplo, teria um impacto astronómico.

Também os adultos e as pessoas mais velhas precisam de informações específicas, com as quais se identifiquem e que permitam projetar-se. Quando nos identificamos com a mensagem que é transmitida sentimos algo. E a ativação emocional, ao contrário da indiferença, é fundamental para uma mudança na forma de pensar e, consequentemente, de agir.


Psicóloga clínica

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