O escrutínio e as críticas às falhas das estruturas de alerta, de proteção civil e de apoio em caso de catástrofe - dos bombeiros à Saúde, passando pelas infraestruturas energéticas e pelos militares - não são um exclusivo de Portugal. É assim em França, Espanha e no Reino Unido, na verdade um pouco por todos os países democráticos, em que os cidadãos, contribuintes e eleitores, podem expressar livre e publicamente as suas preocupações, desespero ou mesmo a sua raiva.Tal como noutros momentos dramáticos no nosso país, chegará o tempo de escalpelizar a fundo o que não correu bem durante as tempestades Ingrid, Joseph , Kristin e Leonardo, que assolaram e ainda assolam Portugal desde o final de janeiro. Serão feitos relatórios e análises técnicas, haverá ministros e comandantes operacionais a responder no Parlamento.Não é futurologia arriscada. Foi assim, por exemplo, nos incêndios de 2017, nos quais morreram pelo menos 116 pessoas. E haverá - com toda a certeza - demissões e remodelações de estruturas inteiras. Parafraseando Giuseppe Tomasi di Lampedusa, no seu romance Il Gattopardo, por vezes “é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma”..As auditorias aos fogos de Pedrógão Grande apontaram uma falha grave no topo da estrutura de comando da Proteção Civil. Um dos relatórios entregues no Parlamento indica que o comandante operacional nacional da Autoridade Nacional de Proteção Civil, à época Rui Esteves, deveria ter tido “uma presença ativa” durante o incêndio. Que não deveria ter delegado o comando das operações no seu número dois, o tenente-coronel Albino Tavares, o homem que deu a ordem aos operadores de comunicações para não registarem mais alertas na fita do tempo do incêndio. Uma ordem que, na prática, terá impossibilitado de avaliar todas as falhas na resposta operacional.Quase uma década depois, assistimos novamente a sinais de problemas sérios no topo das estruturas de comando da entidade encarregada de alertar e lidar com os efeitos destes fenómenos catastróficos.A ausência do país do comandante Nacional da Proteção Civil durante os piores dias das tempestades Joseph e Kristin, nos dias 26, 27 e 28 de janeiro, é grave e constitui um sintoma de males maiores.Não é tanto o facto de Mário Silvestre, o homem no topo da pirâmide da coordenação, a última palavra em todas as decisões operacionais, ter sido autorizado a deslocar-se a Bruxelas para uma formação. É possível, ainda que pouco plausível, que não houvesse ainda uma ideia clara sobre os riscos da Tempestade Kristin, mas não é desculpável que Mário Silvestre não tenha regressado imediatamente quando os efeitos já eram visíveis até aos olhos destreinados do cidadão comum.Ontem, Mário Silvestre ensaiou o discurso dos condenados: “A minha presença física nada teria mudado”, uma vez que “nada deixou de ser feito pela minha ausência”.Das duas uma, ou Mário Silvestre considera - dez anos depois de Pedrogão - que é aceitável comandar operações em Estado de Calamidade por Zoom, Teams ou WhatsApp, ou acaba de assumir que não faz falta nenhuma nas operações. Diretor-Adjunto do Diário de Notícias