Clima e pandemia: visões curtas na hora das urgências

O sul de Madagáscar está a sofrer um longo período de seca. Daqui resulta insegurança alimentar para cerca de um milhão e meio de pessoas. Sem meias-palavras, subalimentação e fome. Para mais, a pandemia do coronavírus veio agravar a crise humanitária. As escolas fecharam e as crianças deixaram de ter acesso ao almoço diário que estas lhes proporcionavam, graças à intervenção do Programa Mundial de Alimentação da ONU.

A seca é mais intensa desta vez, em virtude da deterioração acelerada do meio ambiente - nestas terras de gentes pobres, as árvores são abatidas a ritmo acelerado, para servir de lenha e para permitir obter localmente uns tostões no rico mercado mundial das madeiras. Com o corte das árvores, os ventos secos destroem as poucas culturas que sobrevivem à prolongada falta de água. Seca ainda pior devido às alterações climáticas, que acentuam os fenómenos meteorológicos extremos, tornando-os devastadores.

Os habitantes da região não têm ideia de que a temperatura média nessa parte da ilha poderá aumentar 6,5 graus centígrados até ao final do século. Se isso acontecer, o que agora é um problema humanitário grave, mas ainda em parte gerível, se a ajuda internacional chegar a tempo, deixará de o ser. A população terá então de abandonar as terras ancestrais, cortar as raízes com as suas tradições e migrar, provavelmente para os bairros de barracas, na periferia da capital, Antananarivo, ou de outras cidades. Ao fazê-lo, estarão no mesmo processo de desenraizamento e de aceleração da precariedade que outros povos, noutras partes do mundo, também irão conhecer. À insegurança dos modos de vida juntar-se-á a insegurança nua e crua de quem terá de pisar repetidamente o risco da legalidade para mal poder sobreviver.

Tão-pouco sabem que dentro de três meses se reunirá, em Glasgow, a 26.ª Conferência das Partes - a COP26, que reúne governos, agências da ONU e outras - para fazer o ponto da situação da luta contra o aquecimento global e outras questões ambientais. A COP26 realizar-se-á seis anos após a Conferência de Paris sobre as Alterações Climáticas, uma cimeira que reconheceu a urgência de agir. Foram então identificadas três áreas absolutamente prioritárias: reduzir as emissões de carbono; sair da economia baseada no carvão; e programar o desinvestimento a médio prazo nos combustíveis fósseis.

Promessas mudam com os ventos, ao sabor dos oportunismos. Os líderes fazem políticas de curto prazo, a pensar no velho conceito de produto interno bruto, definido à antiga, e nas eleições seguintes. Para um político tradicional e sem visão, as questões globais são matérias distantes e abstratas.

Puro engano deles. As ameaças globais fazem cada vez mais parte das nossas realidades. Não apenas no longínquo Madagáscar, ou noutro canto ignorado do planeta, mas aqui e agora, nos nossos países desenvolvidos. O que aconteceu há um par de semanas com as cheias na Alemanha e na Bélgica foi um choque impensável. De repente, essas populações, e todos os que na Europa viram as imagens na televisão, perceberam que as alterações climáticas não são apenas um problema dos países mais frágeis. O mesmo se poderá dizer de quem sofreu com a onda de calor e os subsequentes incêndios que trouxeram dor, desolação e morte às populações costeiras do Pacífico, no Canadá e nos EUA. Ou do que tem acontecido na Sibéria, neste ano de novo, em termos de fogos nas florestas que nunca ardiam, ou das recentes inundações em partes da China.

Apesar de tudo isto, os países membros do G20 não conseguiram ainda chegar a um acordo sobre as medidas que deverão ser adotadas em Glasgow.

Agosto é má altura para falar destes temas. Mas a rentrée em setembro terá de colocar a preparação da COP26 no topo da agenda, a par da questão gravíssima da desigualdade no acesso às vacinas contra a covid-19, por parte dos países pobres. O desafio será o de transformar o slogan vazio, embora continuamente repetido, sobre a reconstrução de uma economia mais verde pós-pandemia, numa série de planos concretos. E tornar as vacinas acessíveis a ricos e pobres. Tratar-se-á de lembrar aos grandes e aos pequeninos chefes enleados em hesitações e oportunismos que nestas duas matérias o futuro já começou, e toca a todos.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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