Para quem tinha chegado ao final de 2025 quase sem fôlego após uma avalanche de conflitos e tensões nacionais e internacionais que parecem ter-se transformado na (a)normalidade de uma nova (des)ordem mundial, a entrada de 2026, com o raid norte-americano na Venezuela para capturar o cleptocrata Maduro pela calada da noite, não podia trazer aviso mais claro de que o melhor é mesmo manter o cinto apertado, pois a turbulência parece estar longe de acalmar. Olhando para o novo ano e para o que pode trazer pela frente, a única certeza é a de um mundo cada vez mais incerto. Seja na geopolítica, abanada diariamente por este terramoto contínuo que tem sido a segunda passagem de Trump pela Casa Branca; seja na política interna, com as Presidenciais mais incertas desde os tempos em que Soares era “fixe”; seja na economia, com fantasmas de recessão à espreita, tumultuosas reformas laborais e bolhas a ameaçar rebentar ao mínimo contratempo; seja simplesmente à nossa volta, no dia-a-dia, com extremismos e tensões sociais a crescer e uma IA que acelera mais depressa do que a nossa capacidade de a compreender.Aceitemos que a realidade é pouco confortável e que não conseguimos antecipar ou dominar o que vai acontecer em todo o lado, a todo o instante. O xerife Trump quer mesmo uma democracia na Venezuela ou só atropelar o que resta do direito internacional em por um punhado de petrodólares? Teremos outros chefes de Estado, ditadores ou mais fofinhos, a acordar com as tropas especiais americanas no quarto? Quão mais se pode agravar o conflito no Médio Oriente? A guerra da Rússia com a Ucrânia finalmente terminará? E a troco de quê? O ChatGPT vai ser o meu chefe?Todo este sufoco se conjuga com um ruído incessante a tocar como música de fundo, com notícias, opiniões, alertas, previsões e desinformação em catadupa a competir pela nossa atenção a cada segundo e a contaminar os debates. Nunca tivemos tanta informação disponível e, no entanto, parece nunca ter sido tão difícil perceber o que realmente importa.A capacidade de distinguir o essencial do acessório é hoje a competência crítica mais importante nesta era de inteligências artificiais. E talvez seja essa uma resolução sensata para 2026: fazer melhores escolhas, empregar melhor o tempo, desconfiar das certezas absolutas dos novos Messias nas redes sociais, questionar a “justiça” fácil dos novos xerifes, evitar cegueiras ideológicas, não abdicar do pensamento crítico pelas promessas de sabedoria eterna da IA e aceitar – como nos avisou o filósofo/ensaísta libanês Nassim Taleb e a sua teoria do Cisne Negro -, que o acaso e a catástrofe fazem parte do mundo complexo em que vivemos.Mais do que vivermos obcecados com uma (falsa) sensação de controlo absoluto, importa estarmos preparados, individualmente e enquanto sociedade, para não sermos esmagados pela imprevisibilidade da nova desordem global. E isso não passa por termos certezas sobre tudo, mas pela consciência do impacto das escolhas que fazemos. Cada vez mais.