Cinco desafios para o PSD

Publicado a
Atualizado a

Mudar. Rui Rio prepara-se para perder a sua terceira eleição consecutiva. A troika, o passismo, a oposição interna, as sondagens, a maçonaria ou a imprensa não servirão como desculpa. Já se esperou, já se deu tempo, já se procurou entender, já chega. Rio começou por defender uma estratégia ao centro, de aproximação ao PS, com quem assinou pactos de nula consequência mas útil aparato, e acabou a aceitar acordos e putativas conversações com o Chega. Independentemente da bondade ou coerência ideológica destes movimentos, uma coisa é certa: nenhum deles resultou. Em três anos de liderança, Rio não tem um resultado acima dos 27% ou uma sondagem acima dos 30%. Neste país político, Costa é rei da governação e Ventura senhor da contestação. O PSD, único partido capaz de concretizar uma alternativa de poder, não existe. É agradecer-lhe, apertar-lhe a mão, passar o álcool-gel e seguir em frente. Pior será difícil.

Integrar. Qualquer solução que lhe suceda tem uma vantagem e uma tarefa. A vantagem? Começa do zero. A incoerência estratégica de Rui Rio proporciona uma carta branca para o projeto a seguir. Como ninguém sabe o que o PSD é, o seu futuro programa poderá ser quase tudo. Há terreno livre para o risco, para a inovação, para a disrupção. Essa é a vantagem, além do facto de que um partido que aguenta quatro anos sem ganhar uma eleição dará pelo menos dois de tolerância a esse refrescamento. A tarefa é mais árdua: integrar e unir o partido, incluindo quem apoiou o incumbente, não transformando o próximo congresso num espetáculo nacional de egos. Boa sorte com isso.

Captar. Um dos exercícios mais pertinentes a realizar numa análise ao PSD é comparar as lideranças distritais de hoje com as de há 15 ou 20 anos. Sem querer ofender ninguém, não há um único presidente de distrital que pudesse hoje ser ministro, à exceção do eurodeputado José Manuel Fernandes, na Agricultura. Se recuarmos, o contraste é avassalador. Mendes Bota no Algarve, Ferreira Leite em Lisboa, Encarnação em Coimbra, Reis em Braga, Menezes no Porto, Ribau em Aveiro. O leitor conhece algum dos atuais homólogos? Não. Para combater esse problema, deve dar-se prioridade a dois pontos: travar a sangria de jovens para novos partidos à direita (IL e CH) e absorver, a devido tempo, os melhores quadros que sobrarem do velho partido da direita (CDS).

Aproveitar. Nas últimas legislativas não houve um partido com assento parlamentar que não falasse em "contas certas". Depois de Centeno, com a união das esquerdas sob o défice zero, o país alcançou esse consenso orçamental. E essa é, mais uma vez, uma oportunidade para um partido como o PSD. A agenda está livre para ser definida. Sem os sobressaltos étnicos da esquerda e os repentismos ideológicos da direita, os sociais-democratas podem fazer o que entenderem. Se a conversa do alívio fiscal foi manifestamente derrotada há três anos, há - e tem de haver - mais. Não necessariamente empunhar bandeiras conservadoras, mas proteger o espaço de liberdade dos conservadores. Descobrir onde está o marcelismo, que deu 60% ao Presidente, mas sem Marcelo. Preservar as instituições democráticas que, há quase 50 anos, o PSD ajudou a fundar. Não partir da rua para a representação, mas da representatividade para o país.

Ganhar. 2023, creio que concordamos todos, tem um favorito a vencedor: António Costa. Em 2024, nas próximas europeias, uma lista fresca, com experiência política e académica, articulada com a bancada da Assembleia da República, poderia ser o começo de um sinal. Penso em dois nomes: Gonçalo Saraiva Matias, diretor da Fundação Francisco Manuel dos Santos, professor universitário e ex-secretário de Estado, e Mónica Ferro, também professora universitária, também ex-secretária de Estado e alto quadro da ONU.

Colunista

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt