A expressão urbana da “Praxis”, ligada à ideologia tecnoliberal, vê a democracia como um obstáculo ao avanço tecnológico nos territórios. Este movimento, inspirado em Peter Thiel e Curtis Yarvin, propõe a criação de cidades privadas geridas como se fossem sistemas operativos, onde a Inteligência Artificial (IA) substitui a deliberação política e o território se torna uma plataforma computacional otimizada.Essa lógica estende-se igualmente à geopolítica. O interesse norte-americano pela Gronelândia, tratada como “ativo estratégico”, converte territórios em infraestruturas, populações em variáveis e soberania em algo negociável.Neste modelo tecnofeudal, a governação deixa de exigir consensos, os problemas são resolvidos com dados, quem não se adapta é excluído e quem controla os dados controla a cidade e o território. A Gronelândia, com os seus recursos minerais e a baixa densidade populacional, encaixa-se perfeitamente nesta lógica “otimizável”.Portugal é particularmente vulnerável a esta ilusão tecnoliberal, não por imposição externa, mas por deslumbramento político. A abertura ao investimento estrangeiro, o entusiasmo com as “smart cities” e a promessa de reforma do Estado baseada em IA, criam um ambiente favorável a estas soluções apresentadas como modernas e inevitáveis.O nosso país é profundamente desigual, com um litoral concentrado, o interior esvaziado e ausência do Estado em vastas regiões. Neste contexto, propostas como cidades privadas, zonas especiais ou regimes de exceção regulatória aparentam coragem política. Prometem inovação, capital financeiro, emprego qualificado e requalificação territorial. O problema começa quando se confunde investimento com soberania e modernização com abdicação democrática.Ao suspender regras laborais, fiscais, ambientais ou urbanísticas, ainda que “temporariamente”, fragiliza-se a ideia de exercício da cidadania e de direitos iguais perante a lei. Tal como na Gronelândia, o território passa a valer mais pelos seus recursos do que pelas pessoas que o habitam. O espaço torna-se um ativo financeiro e não um espaço político.Estes modelos defendem cidades exclusivas para elites, geridas por algoritmos, com decisões automatizadas e conflitos reduzidos ou eliminados por via tecnológica. Para um Estado acusado de ineficiência, isto parece progresso, mas quem será que define os critérios desses sistemas e quem responde pelos seus resultados?Num país desigual como Portugal, a governação algorítmica privada tende a aprofundar assimetrias. A IA não corrige desigualdades estruturais, pois aprende com elas e amplifica-as. Aplicada à habitação, à mobilidade, à saúde ou a outros serviços essenciais, acaba por favorecer apenas quem já tem poder financeiro. O interior arrisca-se a ser um laboratório, onde as populações mais frágeis são tratadas como dados e a exclusão não passa de um efeito colateral aceitável.A experiência internacional mostra que estes projetos escolhem territórios fragilizados, pois quando a alternativa apresentada é a estagnação ou a “inovação”, a escolha é óbvia e deixa de ser livre. O mesmo raciocínio sustenta a pressão sobre regiões como a Gronelândia, onde o isolamento é tratado como atraso e a anexação é vista como salvação.Ao se aceitarem exceções territoriais, normaliza-se a ideia de que a democracia é negociável e que a cidadania depende do valor económico do espaço. Para um país como o nosso, com uma memória de autoritarismo, este movimento deve soar como alerta.A modernização não pode acontecer à custa do exercício da cidadania. A IA pode servir o interesse público, mas apenas se for pública, escrutinável e subordinada a decisões democráticas. Quando as exceções se tornam a regra, o espaço comum encolhe e, com ele, a democracia perde relevância. Especialista em governação eletrónica