Chega, PCP!

Numa crónica recente, afirmei que o PCP é um partido que está, essencialmente, contra. Seja o que for. Contra a Europa, o Euro, a OTAN, a OCDE, o FMI, o BCE e a UE. Contra o défice zero, o pagamento da dívida pública e a banca. Contra o capitalismo, as grandes empresas, os patrões e a propriedade privada. Esta semana, voltou a estar contra, elegendo dois alvos: a Ucrânia e a democracia parlamentar. E escalou a retórica, aproximando-se do método Ventura.

Há quem diga que os extremos se tocam. Apesar de a formulação ideológica dos comunistas estar a anos-luz das minhas preferências, habituei-me a olhar para o PCP como um partido hábil em esticar da corda, mas distante de extremismos. A verdade é que a erosão do tempo vai empurrando Jerónimo de Sousa e os seus colegas para uma zona da ação política que era, até agora, território do Chega de André Ventura.

Já todos sabíamos que o PCP morre de saudades da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Apesar disso, tínhamos esperança de que o curso da História se tivesse imposto ao imaginário dos nossos comunistas. Assim não é. A subserviência à Rússia e ao seu líder remete-nos para o campo do risível. Putin não quer saber de comunistas, e muito menos de comunistas portugueses. Não se vislumbra o que pretende o PCP alcançar, ao papaguear a argumentação de Vladimir Putin. As intervenções sucessivas de João Oliveira, Miguel Tiago, Jerónimo de Sousa e Paula Santos, acusando o poder Ucraniano de xenófobo e belicista, e inventando um genocídio no Donbass que não é confirmado por nenhuma entidade independente internacional, revelam uma cegueira e um método discursivo lamentáveis.

É caso para dizer: Chega, PCP! Sim, porque o PCP está a fazer de Chega. Esta ideia de dividir o mundo entre bons e maus, brancos e coloridos, nós e eles, os de bem e os outros é o método de Ventura, que estigmatiza, difama, rebaixa e inferioriza os seus alvos. A intervenção de Paula Santos, nos corredores do Parlamento, a justificar a ausência dos seus parlamentares na sessão em que o presidente Ucraniano discursou, foi penosa. A linguagem simbólica daqueles minutos revelou um partido fossilizado e destroçado. Um grupo que deixou de representar quem quer que fosse, deprimido como se tivesse perdido uma referência, a insultar e a disparar acusações a um regime e um presidente eleito democraticamente.

O vício histórico das referências aos massacres escondidos nas sebentas do PCP já não convence ninguém. Desde logo porque tendem a esquecer os pecados e as mentiras russas e soviéticas, como o mais vergonhoso de todos os genocídios - o massacre de Katyn -, aprovado por Estaline, que resultou na liquidação de 22 mil polacos, incluindo as elites militares e intelectuais, atribuindo a culpa ao regime nazi de Hitler. É incompreensível a insistência em métodos que hoje já não enganam ninguém.

A ausência do pequeno grupo parlamentar do PCP na sessão parlamentar onde discursou o presidente Zelensky foi uma espécie de prelúdio da despedida dos comunistas do espetro político nacional. Imunes aos ventos da História, continuam iguais a si próprios, numa decadência que os levará, ainda mais cedo do que eu próprio imaginava, à extinção. Depois do que vi esta semana, não deixarão saudades a ninguém.

Professor catedrático

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