Cerveja, Casablanca e silly season!

Não fosse a vírgula no título e estaria a fazer publicidade a uma cerveja marroquina! Na verdade, nesta semana que viu a regularização das relações diplomáticas entre a Turquia e Israel, há muito que tinha previsto este tema e há algumas semanas que o adiava, sempre ao arrepio do último acontecimento, sempre no limite de tempo para preparar e articular as últimas ideias. Esta semana não houve tempo e como estamos no mês das reprise(s), aqui fica a novidade.

Foi anunciado há já um mês ou dois, que Casablanca receberá a primeira edição do Oktoberfest, a partir do próximo 28 de Outubro! Ficou a dúvida, desde então, se este anúncio promovido pela Embaixada da Alemanha em Rabat seria mesmo para levar a sério, ou se se trataria de uma mera provocação. Desde então têm sido reforçados os sinais sobre a inevitabilidade da realização deste evento em Outubro próximo. Marrocos já não tem um governo liderado pelos islamistas do PJD e a "Iniciativa Liberal marroquina", liderada por Akhannouch, pretende vincar que os dez anos que se seguiram à Primavera Árabe, de experiência islamista em Marrocos, são definitivamente passado e que, perante a encruzilhada entre tradição e moderno, o Marrocos dos novos anos 20, escolhe claramente a segunda hipótese. Mas há outras consequências políticas a tirar desta vontade.

Em primeiro lugar, o rei Mohammed VI (MVI) há dois anos que prepara uma visita oficial à Alemanha. Parece pouco tempo, mas durante este período uma eternidade de coisas foram acontecendo, incluindo um corte de relações diplomáticas entre ambos os países, que durou praticamente um ano. É com a tomada de posse do novo governo do chanceler Scholz que o gelo começa a quebrar e com o reconhecimento por parte do governo espanhol do plano de autonomia marroquino para o Sahara em disputa, que os alemães perceberam que o jogo estava a mudar à sua frente e não por sua iniciativa. Ou seja, é possível que a visita do monarca MVI à Alemanha aconteça em simultâneo com a realização deste evento cultural alemão em Casablanca e veja, nesse momento também, Berlim seguir o exemplo de Madrid e reconhecer o plano marroquino para o Sahara em disputa, como o mal menor neste impasse de já quase meio século. A acontecer desta forma, que parece simples e simplista, o jogo mudará em definitivo. Ter um país da União Europeia (UE) sozinho com uma posição diplomática e política isolada relativamente a um terceiro e ter esse mesmo país acompanhado da Alemanha "é outra loiça"! Por isso tenho defendido que Portugal deveria ter seguido o exemplo de Madrid, logo no dia seguinte ao discurso de Pedro Sánchez. Porquê? Porque Portugal replicar posições espanholas é normal e neste caso específico ganharia pontos que nos destacariam dos demais aos "olhos do palácio". Ser incluído numa decisão em bloco da UE é ficar diluído entre os demais e perder margem de negociação favorável pela Península Ibérica ter actuado em bloco, pela proximidade, laços históricos, pela rivalidade ibérica ser bem compreendida e usada por marroquinos neste "entre nós a três".

De regresso à cerveja de Outubro, este evento fará mover a "mouvance" islamista, mas não se prevê para este festival o mesmo fim do atrevido negócio de um bidaoui (natural de Casablanca), no 2011 de todas as ilusões, a abertura da primeira sex shop em Casablanca/Marrocos, negócio que durou três semanas, até os barbudos lhe terem ateado fogo.


Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG