Cavar trincheiras

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Encruzilhada é aquele lugar irremediável onde temos de escolher entre dois ou mais incertos caminhos. É aí que estamos. Poucas coisas serão mais perturbadoras e fraturantes do que uma guerra. Na Europa estamos a compreender, a marchas forçadas, tarde e más horas, o enorme erro de depender de fontes de energia que, além de poluírem, nos fazem depender de amizades perigosas.

Um mês após o início da invasão da Ucrânia, começam a alinhavar-se as primeiras medidas para lidar com a inflação galopante, enquanto interiorizamos que já estamos mais pobres. O grande paradoxo é que as medidas de urgência lançadas para refrear os efeitos económicos mais imediatos nos afastam da desejada autonomia estratégica. Ou seja, o caminho que escolhemos para vencer um obstáculo coloca-nos mais longe do destino que desejamos. E o pior é que, neste momento, é provável que não se possa fazer outra coisa. Um bom exemplo é a decisão (que não é só portuguesa) de bonificar as transportadoras em 30 cêntimos por litro de combustível, ou seja, financiar uma fonte de energia fóssil como o petróleo, em sentido radicalmente contrário ao que estava previsto, ao que ainda há dois meses a União Europeia exigia de nós, ao que a OCDE nos recomendava, e ao que evidenciam os últimos relatórios das Nações Unidas sobre a crise climática. O agravamento dos preços dos combustíveis contamina e é imediatamente transmissível às famílias e empresas, atingindo principalmente as classes média e média baixa, já que os de mais baixos rendimentos nem sequer têm transporte próprio. Para já, do mal o menos, limitamo-nos ao controlo de danos. As medidas disponíveis são modestas e transitórias, para uns meses, mas os problemas económicos vão prolongar-se mais, muito mais, se o conflito no Leste europeu se arrastar ou mesmo agravar. É impossível saber quanto tempo vai durar, mas já começamos a conhecer os primeiros efeitos daninhos desta crise de energia.

Na encruzilhada, a União Europeia (e nós lá dentro) enfrenta uma situação difícil em que tem de combinar dois objetivos contraditórios, no curto prazo: garantir o abastecimento energético sem agravar as alterações climáticas, obrigando a acelerar a transição de toda a economia, de toda a sociedade, enfim, a forma como vivemos, para um modelo energético mais autossuficiente. E evitar assim a dependência de regimes autocráticos dispostos a utilizar as suas reservas de gás e petróleo como elemento de chantagem. Aí está, pois, uma das nossas melhores trincheiras nesta guerra.

É claro que é preciso reagir e conter a carestia que aí vem. Mas o governo de maioria absoluta, que agora ganha balanço, tem ao seu alcance a oportunidade para acelerar a transição energética, melhorar as interconexões de rede com a Europa e esclarecer a intrincada penumbra da nossa política de energia, demasiado embaciada pelos interesses. Um bom começo seria, desde já, reforçar drasticamente o programa de reabilitação de edifícios (a começar nos públicos, claro!) e promover as instalações fotovoltaicas de autoconsumo. Estima-se que os edifícios gastem 30% da energia utilizada, tanto quanto todo o transporte rodoviário nacional. Ora, não se pode culpar um governo por atender a urgências, mas é bom que o leme não ignore o rumo fixado pelo objetivo de descarbonizar a economia. O Pacto Ecológico Europeu, o Programa de Recuperação, Transformação e Resiliência ou o Plano Nacional Integrado de Energia e Clima, entre outros instrumentos, não podem ir para o lixo - executados, eles são a nossa trincheira nesta guerra.


Jornalista

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