Causas da decadência

Foi há 150 anos. A derrota francesa na guerra com a Prússia, em 1870, ditou profundas consequências no quadro europeu.

À queda de Napoleão III sucedia a fundação do Império Alemão com Bismarck, que aproveitou a vitória militar para "acertar" os elementos finais da unificação, demovendo a Baviera das conhecidas resistências. Começava uma nova era, centrada na industrialização e num quadro político que terá no século XX desenvolvimentos dramáticos. O cerco de Paris, a proclamação do império pelos alemães na Sala dos Espelhos em Versalhes, constituíram uma humilhação que levou à rebelião parisiense, que o governo de Thiers apenas conseguiu suster a ferro e fogo. O poder caiu na rua e Zola viu um imenso véu negro envolver a capital. Era a rebelião social que invadia as ruas de Paris. A Comuna alimentava a ideia de emancipação popular, mas o resultado foi um banho de sangue com barricadas e destruições que deixaram a cidade irreconhecível. A única solução política viria a ser uma república supostamente transitória, em que o monárquico marechal Mac-Mahon seria eleito presidente por sete anos, à espera de um entendimento, que nunca veio, entre Bourbons e Orleães...

Enquanto a agitação parisiense se desenvolvia, culminando na semana sangrenta, em Portugal um grupo de intelectuais, em 16 de maio de 1871, assinava um manifesto, em que se proclamava: "Não pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando deve também ser o assunto das nossas constantes meditações. Abrir uma tribuna, onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos." Não passava despercebida a intenção da iniciativa. Os signatários eram Adolfo Coelho, Antero de Quental, Augusto Soromenho, Augusto Fuschini, Eça de Queiroz, Germano Vieira Meireles, Guilherme de Azevedo, Jaime Batalha Reis, J.P. Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Salomão Sáraga e Teófilo Braga e convocavam as Conferências Democráticas para o Casino Lisbonense, no Largo da Abegoaria (hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro). Urgia "ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada. Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam na Europa. Agitar na opinião pública as grandes questões da filosofia e da ciência moderna. Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa".

Tal era o fim das conferências, que beneficiavam da aura de Antero de Quental, herói dos combates pelas novas ideias que tinham animado Coimbra anos atrás. Antero falaria, a 22 de maio, a abrir, sobre o espírito das conferências e a seguir na essencial palestra sobre "As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares". Seguir-se-iam Augusto Soromenho sobre a Literatura Portuguesa, Eça de Queiroz sobre "O Realismo como Nova Expressão da Arte" e Adolfo Coelho sobre o "A Questão do Ensino". Salomão Sáraga falaria sobre "Os Historiadores Críticos de Jesus". Falaria, mas não falou, pois uma portaria de António José de Ávila proibiu a realização da sessão, num ato singular e inesperado, contra a prática do constitucionalismo, que geraria uma onda de protestos e daria visibilidade acrescida à iniciativa. Alexandre Herculano elevou a sua voz prestigiadíssima contra a arbitrariedade e Antero de Quental assinou uma obra-prima da polémica política: "Carta ao Exmo. Senhor José d'Ávila, Marquês de Ávila, Presidente do Conselho"... Foi há 150 anos e marcou decisivamente a afirmação do espírito democrático em Portugal, na defesa da sagrada liberdade de expressão do pensamento.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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