Catástrofes, liderança e o teste da resiliência nacional

Publicado a

As tragédias provocadas pelas depressões Kristin e Leonardo recordam-nos o óbvio: uma catástrofe é, por definição, excecional. O erro não está na existência do fenómeno, mas na nossa insistência em ignorá-lo. Por mais preparado que esteja um país, a natureza conserva sempre a sua margem de imprevisibilidade. O desafio não é eliminar o risco, mas reduzi-lo e garantir capacidade de recuperação rápida e eficaz quando o inevitável acontece.

Grande parte dos danos observados não resulta apenas da força dos elementos, mas de falhas persistentes de planeamento, fiscalização e cultura de risco. Continuamos a permitir construção em zonas vulneráveis, a aceitar obras sem qualidade e resistências mínimas. O nosso clima temperado habituou-nos a projetar para a regra, nunca para a exceção. Quando a exceção chega, o preço paga-se em vidas, património e confiança.

Em situações de catástrofe, a linha de comando é o eixo da resposta. Nada pode ser improvisado. É essencial que os planos estejam definidos, testados e interiorizados, e que todos conheçam o seu papel. A redundância, a disciplina e a clareza da comunicação não são detalhes técnicos, são condições de sobrevivência coletiva.

Esta responsabilidade cabe à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e ao seu Presidente, sob tutela política do Ministro da Administração Interna. Estas funções exigem mais do que competência técnica ou sensibilidade política; exigem experiência operacional comprovada em comando, controlo, comunicação e gestão de crise. Em momentos-limite, o país precisa de líderes que decidam sob pressão, não de gestores de gabinete.

A comunicação é o coração da coordenação operacional e da estabilização social. Se as forças de segurança e emergência não comunicam porque as redes falham, estamos perante uma falha estrutural de soberania. Um sistema de comunicações fiável, resistente e redundante não é uma despesa. É um investimento em segurança nacional, em saúde pública e em vidas humanas. Qualquer adiamento nesta área compromete a capacidade do Estado de cumprir a sua missão.

Apesar das fragilidades do sistema, o povo português voltou a demonstrar a sua conhecida resiliência. No meio do caos, a entreajuda e a capacidade de adaptação emergiram como sempre. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer de alguns responsáveis políticos e de parte da comunicação social, que, em vez de informar, preferiram inflamar.

Enquanto uns procuraram palco e flashes, encenando gestos de ajuda mais interessados no efeito do que na substância, outros exibiram impreparação gritante, para a vida e para a profissão. O papel do jornalismo em crise é informar com rigor, não dramatizar para consumo imediato.

Em tempos de crise, menos é mais. A boa vontade não substitui a competência. O que se exige dos líderes é coragem, profissionalismo e rigor. A presença mediática é inútil se não for acompanhada de uma voz única e coordenada. Aparecer por aparecer é amadorismo. Aparecer em dissonância é descontrolo. E quem transforma a tragédia em cenário para promoção pessoal revela apenas oportunismo.

O país foi apanhado de surpresa uma vez. À segunda, desculpa-se. À terceira, exige-se mudança estrutural. Portugal não pode continuar a aprender apenas depois da tragédia. É tempo de agir sobre o risco, antes que a exceção se torne a regra.

Diário de Notícias
www.dn.pt