Castlereagh, 200 anos depois

Robert Stewart, visconde de Castlereagh, nasceu em 1769 em Dublin, no mesmo ano que Napoleão, e morreu em 1822 em Londres, um ano depois dele. Foi o seu contemporâneo mais constante, ainda que não a sua némesis política ou militar. Protegido do então primeiro-ministro William Pitt, O Novo, Castlereagh é uma das mais originais e injustiçadas figuras europeias da era da Revolução Francesa. Em 1815, quando o Império Napoleónico finalmente cai, era indubitavelmente o homem mais influente no continente - e um dos mais poderosos. Foi ele que insistiu com Jorge III para nomear Wellington general do Comando Peninsular, posição sem a qual não teria chegado a Waterloo, e ao fim da guerra. Foi ele que se sentou com Metternich e Talleyrand em Viena, de 1814 a 1815, para impedir a Europa de se destruir novamente. E foi ele que, atormentado por difamações e ameaças, se suicidou em pleno exercício de funções, sete anos após a derrota do bonapartismo.

Ministro com uma década contínua de poder, quase vazia de ambições pessoais ou congeminações partidárias, a sua simpatia pela emancipação católica tornava-o um corpo estranho no Partido Conservador e um alvo a abater pela Igreja de Inglaterra, da qual, por sinal, era crente. Colegial entre individualistas, cauteloso entre repentistas, não era um homem de palavras, lidas ou proferidas. Órfão de biblioteca pessoal, preferia o conhecimento da via empírica, iminentemente através de si mesmo. O primeiro a desempenhar o cargo de líder parlamentar na Assembleia Irlandesa e, depois, na Câmara dos Comuns, não ficou na história do reino pelos dotes de orador. Era esse seu particular conjunto de qualidades - e a ausência de características então consideradas essenciais - que o fizeram triunfar num plano distinto dos demais e, também, ser esquecido e caluniado quando os demais não o foram.

Thomas Moore, seu compatriota, satirizou-o sem piedade. Byron assinaria versos cruéis, logo a seguir ao seu falecimento.

Robert Peel, que chefiaria os conservadores nas décadas vindouras, atribuir-lhe-ia "um sangue frio e um coração quente". Lord Salisbury, titã da Política Externa vitoriana e seu seguidor, escreveria: "Não há nada de dramático nos sucessos de um diplomata. As vitórias são feitas de avanços microscópicos. Uma sugestão aqui, uma cordialidade ali. A sabedoria de conceder num momento, a perspicácia de persistir noutro. Um tato sempre desperto, uma calma inamovível e uma paciência que nenhuma provocação, jogatana ou golpe consiga perturbar. A glória de um diplomata é a mais efémera das glórias. Não há nada nela que apele à imaginação, que a arte possa ilustrar, que a tradição possa manter ou que a história recorde".

Castlereagh foi vítima dessa fatalidade.

Deputado aos 21 anos, secretário da Defesa aos 37, ministro dos Negócios Estrangeiros aos 41 e representante do Reino Unido no Congresso de Viena aos 44, colocaria termo à própria vida com 53 anos, vítima de um esgotamento nervoso e de alegada chantagem reputacional. A mensagem do rei para a sua mulher, Emily, desejando-lhe as melhoras durante uma semana de repouso, elevando a sua saúde como de extrema importância para o reino, nunca chegaria aos seus olhos. Na manhã de 12 de agosto de 1822, fez este mês duzentos anos, seria encontrado sem vida no quarto de vestir. Apenas dois séculos mais tarde, através da historiografia, se levantou o seu nome da ignomínia a que foi sujeitado. O duelo de pistola que travou com um colega de governo, por questões políticas e de honra, causaria mais choque na sociedade inglesa do que o seu trágico fim.

Foi, muito provavelmente, o maior diplomata do período a que chamamos História Contemporânea. Desenhou-o, projetou-o e definiu-o como nenhum outro. Não ostentava o peito de Metternich ou a elasticidade de Talleyrand; não era um diplomata politizado, mas antes um político diplomático, cujos talentos se resumiam - ou se dedicavam - quase inteiramente à diplomacia. Vivendo num tempo de transição, do modernismo para a contemporaneidade, das guerras revolucionárias para a paz de Viena, soube refazer equilíbrios de poder e uma ordem internacional capaz de estabilidade e perseverança, somente rompida pela Primeira Grande Guerra, quase cem anos depois. O Estado, que cresceu naqueles anos em tamanho, não sendo acompanhado pela função pública, assoberbou-o e, no fim, quebrou-o.

Nós, que também vivemos hoje um tempo de transição entre eras, e dimensões de Estados, também precisaremos de homens e mulheres como Castlereagh.

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