Casais separados que vivem na mesma casa

Muitos, mas mesmo muitos casais decidiram já separar-se e seguir caminhos diferentes. Mas a pandemia, as dificuldades económicas ou a necessidade em proteger os filhos acabam por adiar a separação física. E, por isso, permanecem na mesma casa. Todos juntos, dia após dia, 24 sobre 24 horas.

Se a separação, por si só, é já uma circunstância fortemente indutora de stress, o que dizer das situações em que os casais tomam essa decisão e se veem obrigados a partilhar o mesmo espaço? Mais, a partilhar esse espaço em pleno confinamento.

O stress que estes casais experienciam é muito intenso e é difícil não ter um impacto negativo no seu bem-estar psicológico. O convívio forçado com quem já não se ama ou, pelo contrário, com quem se ama e nos rejeita, desilude ou magoa pode ser muito doloroso. Estes adultos vivenciam emoções desagradáveis, como a tristeza, a raiva, a ansiedade, o medo ou mesmo o nojo. A tristeza pela perda de um projeto a dois, a raiva pela sensação de impotência, a ansiedade associada à imprevisibilidade, o medo do futuro, o nojo do outro.

Todas estas emoções podem surgir, com maior ou menor intensidade, misturando-se ainda, em tantos casais, com a ambivalência, a indecisão e o desejo. Misturas muitas vezes explosivas que se traduzem em comportamentos de aproximação e afastamento, de querer e não querer, de amar e odiar.

E surgem as discussões, as embirranças pelas mais pequenas coisas, o silêncio de cortar à faca, os insultos e a irritabilidade. O choro nem sempre bem disfarçado, as camas feitas no sofá da sala, as refeições desencontradas.

No meio deste cenário temos, não raras vezes... as crianças. Sempre as crianças, os elos mais fracos que, expostas a este tipo de violência, tentam encontrar estratégias para sobreviver. Dependendo da idade e dos recursos pessoais, poderão evidenciar reações muito diversas. Umas revelam maior isolamento e retraimento, refugiando-se no mundo virtual como uma forma de escape. Outras exteriorizam, podendo exibir comportamentos mais agressivos. Outras ainda tentam proteger um ou ambos os pais, como quem cresce à pressa para desempenhar um papel que não lhe cabe. E depois há aquelas que passam mais despercebidas... que continuam a estudar, a portar-se bem e a fazer o que é expectável. Mas será por isso que sofrem menos? Ou apenas encontraram uma outra forma de evitamento da situação?

Os casais que decidem separar-se e têm de viver na mesma casa e, em particular, aqueles que têm filhos devem começar por reconhecer que esta situação pode tornar-se uma séria ameaça ao bem-estar de todos. E, como tal, exige algumas medidas para tentar minimizar o stress. Seja a definição de regras claras sobre a forma como comunicam na presença dos filhos ou a divisão do tempo em que cuidam destes, permitindo que o outro saia de casa durante algumas horas, é imprescindível estabelecer alguns acordos.

Ainda que o divórcio não seja sentido como bom, é possível tentar um bom divórcio.


Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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