Carta aberta aos pais, neste novo ano letivo
Estamos a iniciar mais um ano letivo, cheio de novos desafios e aprendizagens. E porque o Sistema Educativo envolve, para além dos alunos e professores, também os pais/cuidadores, dedico este texto a estes últimos.
Em primeiro lugar, importa salientar que a escola não substitui a família e atua numa perspetiva de complementaridade. Quer isto dizer que os pais não podem esperar ou exigir da escola aquilo que é suposto ensinarem e treinarem em casa. Falamos das regras básicas de educação, bem como do respeito pelo outro e da aceitação das diferenças.
Depois, temos a forma como olhamos para os professores. É verdade que existem muitas turmas que não têm todos os professores. Também é verdade que alguns professores iniciam o ano letivo de baixa médica ou já cansados e desmotivados. Saibamos compreender aquilo que sentem e vivenciam, tentando colocar-nos no seu lugar... e estimular a empatia nos nossos filhos, ao invés de crítica e da acusação relativamente àquela que parece ser uma das profissões menos valorizadas e mais carecida de reconhecimento público.
Pensemos agora naquilo que esperamos das nossas crianças e jovens. O papel das expectativas é muito importante e muitas vezes criamos expectativas irrealistas em relação aos nossos filhos. Que irão ser os melhores alunos. Perfeitos. Aquilo que nós não conseguimos ser... Tentemos contrariar esta ideia de perfecionismo e mostrar alguma flexibilidade e aceitação do erro. Errar é humano e todos nós podemos aprender com os erros que cometemos.
Talvez aqui seja importante realizar um exercício individual. Feche os olhos e deixe-se transportar para o tempo em que era aluno... O que sentia? Que receios experienciava? Tinha à sua volta um meio demasiado exigente? Se sim, que impacto tinha isso em si?
CitaçãocitacaoNeste novo ano letivo, pedimos aos pais tolerância, aceitação, encorajamento, motivação e flexibilidade. A saúde psicológica das nossas crianças e jovens também depende disto.esquerda
Não esqueçamos também que cada criança tem o seu ritmo de aprendizagem, que deve ser respeitado. Abaixo as comparações entre irmãos e entre colegas, que apenas rebaixam, desmotivam e inferiorizam. Cada criança é única e a sua individualidade deve ser respeitada.
Importa ainda falar da relação com os colegas. Falemos abertamente dos comportamentos que podem envolver bullying e cyberbullying, para que os nossos filhos conheçam esta realidade, saibam identificar sinais de alerta e pedir ajuda sempre que necessário. E, ainda, que rejeitem um papel passivo de observadores e que se mantenham sempre focados na defesa dos direitos de todos.
Quase a terminar esta carta aberta, lembremo-nos de que as nossas crianças e jovens precisam de tempo para descansar, para brincar e para não fazer nada, dando asas à sua imaginação e criatividade. Abaixo as agendas sobrelotadas e as trinta mil atividades extracurriculares.
"The last, but not the least"... os afetos. Que saibamos sempre mostrar afeto positivo de forma incondicional, consolar e encorajar a criança ou jovem face a uma situação difícil. Salientando que o "fazer" e o "ser" são dimensões totalmente diferentes. Ter um mau resultado escolar não significa que a criança seja burra. Estar distraída em algumas aulas não significa que tenha défice de atenção. E chatear-se com alguns colegas não significa que seja má ou agressiva.
Assim, neste novo ano letivo, pedimos aos pais tolerância, aceitação, encorajamento, motivação e flexibilidade. A saúde psicológica das nossas crianças e jovens também depende disto.
Amanhã, numa carta aberta, o que pedimos aos professores?
Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

