Carros elétricos: o bom e tudo o que ainda falta

A solução para a descarbonização é o transporte público ou veículos de mobilidade mais leves, como a bicicleta - e andar a pé. Ainda assim, há muitas famílias que têm crianças pequenas ou maus transportes e precisam de um veículo elétrico. E há também o mundo das empresas, com várias pessoas e equipamentos, onde a viatura elétrica pode ser uma ótima opção. É fácil? Não é. Mas tem de se começar por algum lado. Tento explicar como.

A empresa onde trabalho adquiriu um veículo com capacidade para fazer viagens em tempo razoável entre Porto e Lisboa. "Autonomia" é o que toda a gente quer saber. Qual a autonomia de um elétrico? Esta pergunta é vaga. A razão é simples: a autonomia do veículo depende em primeiro lugar da capacidade da bateria (no nosso caso, 73 Kw) e da velocidade a que se viaja. Se vou a 120, com ar condicionado ligado, quatro pessoas e mala cheia, o carro gasta 25 kw por cada 100 km. Como tenho 73 kw, a autonomia é de quase 300 km (por mais que a publicidade diga que são 480 km). É como num carro a combustível: o consumo depende da velocidade.

Do Porto a Lisboa, os 300 km de autonomia não são suficientes para uma viagem sem paragens. Precisa de carregamento. E isso é fácil? Depende. Na A1 sim. A Brisa e as concessionárias estão a instalar postos de carregamentos rápidos. Por exemplo os da Ionity, nas estações de serviço da Cepsa (Leiria), permitem carregar um carro a mais de 200 kw/h. Ou seja, se tenho uma bateria de 73 kw, carrego o carro até 80% em 18 minutos. Os 20% finais são muito mais lentos por questões de segurança das baterias.
Os carregamentos Ionity são muito caros e menos competitivos face ao gasóleo. Qual o valor? Depende. Já nos cobraram 55 cêntimos por kw. Mas as tarifas estão sempre a mudar. E, portanto, estão quase sempre vazios. Já os "Fast Charge" da Via Verde/EDP, por exemplo em Santarém, são mais baratos e têm uma boa performance: carregam a 160 kw/h, embora estejam mais vezes ocupados. E ficar-se meia hora à espera que alguém acabe (só há um carregador ultra-rápido por estação de serviço) é uma experiência dolorosa para quem tem agendas a cumprir.

Há, apesar de tudo, soluções intermédias - carregamentos a 50 kw/h. No nosso caso, se o carro ficasse ligado uma hora, ficaria com 66% de bateria e 200 km de autonomia para autoestrada. Mas ficar uma hora parado é impossível - e não é necessário chegar-se a 100%. É importante sim que o carro chegue a casa ou até outro ponto onde temos mais tempo de carregar. Daí a vantagem de se abastecer a 200 kw/h ou a 160 kw/h. Mais caro, mas mais eficaz na autoestrada.

Uma outra nota: encontrar carregamento nas cidades começa a ser mais fácil. Os velhos postos da Mobi-e abastecem a 3 kw/h ou a 7 kw/h e só são úteis para quem carrega à noite durante muitas horas. Mas os supermercados e parques de estacionamento públicos começam a ter carregadores com 11 kw/h, ou 22 kw/h, e através das apps (edp ev.charge ou miio, por exemplo) pode verificar-se à distância se estão ou não disponíveis. Há uns meses fui a Bragança. O melhor carregamento estava no parque do Lidl. As apps mostram tudo. Deixei-o a carregar duas horas a 50 kw/h enquanto almoçávamos e fiquei com 100%.

Por fim, carregar em casa continua a ser a maior questão de todas. Conseguir passar um cabo num prédio, desde a habitação até à garagem, é na maioria dos casos impossível. A solução é ligar o carregador ao quadro comum do prédio, além de ter de se instalar um pequeno contador próprio (200 euros pelo menos). Isto necessita de coordenação com a gestão do condomínio e um débito mensal em separado, o que depende da agilidade da gestão de cada condomínio.

Outro obstáculo: um carregador doméstico pode custar perto de 500 euros (ou mais) e o ideal é que seja trifásico para se ajustar melhor à potência disponível no prédio. Algumas marcas automóveis, por vezes, oferecem-nos durante campanhas promocionais, mas não é regra.

E um ponto essencial: carregar no horário depois da meia-noite é muitíssimo mais barato e ambientalmente melhor. Outro entrave: toda a gente do prédio querer fazer o mesmo, o que diminui a capacidade de carregamento - a potência divide-se pelos carregadores. Além disso, em muitos casos, os edifícios terão de rever as potências contratadas com os comercializadores de energia. Idealmente, se os condomínios começassem a instalar painéis solares, poder-se-ia carregar de dia a custo zero e de madrugada em tarifas muito mais baratas. Os apoios do Fundo Ambiental a painéis solares domésticos são uma boa oportunidade sobretudo se depois poderem ser partilhados por todos.

Em resumo: é extraordinário fazer-se esta mudança. Para quem usa essencialmente veículos em pequenas deslocações, os híbridos, que têm baterias suficientes para 40 ou 50 km, fazem desaparecer a conta da gasolina ou gasóleo diário. Para quem tem elétricos e os pode carregar sempre em casa, o valor é muitíssimo menor que o combustível - menos dois terços ou mais. E hoje já se pode ter a ambição, tranquila, de ir a qualquer ponto do país e não ficar mal. Portugal está à frente de Espanha e de outros países, Alemanha incluída. E note: não desistir é a questão. Tudo se resolve, exceto o aquecimento global.


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