Capas negras

Penico na cabeça com orelhas de burro, T-shirt com nomes como badalhoca, de quatro no chão de terra, grunhe e repete alto e bom som enquanto abana as nádegas: "sou porca, porca, porca". É uma caloira em Lisboa. Futura jurista. Depois há abdominais e flexões, álcool despejado no cabelo dos recém-chegados, rodas de penáltis, ordens para rebolar no chão. Seguem-se desfiles pelas ruas, praxistas à frente comandando um grupo de todos sujos, ensopados em lama e cerveja, caras borradas com pinturas, exibidos como troféus, exemplares da submissão modelo, como se fossem a caminho de um pelourinho ou de uma estaca de cabeças na entrada da cidade. Seguem cabisbaixos, receando auto -intitulados dux"s. Mostram-lhes respeito, cravando os olhos no chão - quem os desviar será imediatamente isolado e punido.

Chamar integração a uma prática que, todos os anos, intimida e humilha milhares de putos só faz sentido nas cabecinhas de bullies frustrados e sádicos carnívoros. De resto, é mentira que participem voluntariamente. Há uma bruta pressão de uma suposta autoridade, uma intensa pressão do grupo e ainda o estafado e idiota argumento da tradição. Empregam-se tácticas como gritos, ameaças, esperas, represálias. Procuram e perseguem quem recusa, rodeiam-nos, gozam, excluem. Separam os praxados dos não praxados, aos quais berram na cara que terão que se declarar anti-praxe e ficarão impedidos de estar na demais vida académica, nas festas, na queima das fitas ou na bênção das pastas. Muitos acreditam. Outros panicam. Alguns não estão para se chatear e aceitam. Quantos conseguem fazer frente à matilha assanhada? E quantos vão depois para casa chorar, cheios de dores do vexame? Pois. O escárnio dói. E muito. Quantos, 10 ou 20 anos volvidos, sentem ainda a revolta pelo que engoliram e calaram porque eram novos e não sabiam dizer não? E quantos acabam por chegar às empresas ou aos escritórios e a lugares de chefia? Claro que aí já estarão habituados a humilhar os subordinados ou até colegas. Impunemente.

Sim, há caloiros que participam porque querem e que só encontram boas vindas ou alegria no rastejar e lamber sapatos ou no andar em rebanho a urrar. Mas não é por causa de um punhado de jovens com traços masoquistas patológicos, habituados à violência em casa, ou com ambições a ser o próximo castigador, que devemos permitir e até promover um aceitacionismo acrítico, a abulia e a passividade burra perante um exercício de poder abusivo. Aliás, isso é o oposto a tudo aquilo a que devemos aspirar, sobretudo as universidades. Hoje, trata-se aliás de um perímetro que poucos livres-pensadores e quase nenhuns espíritos reflexivos cria e que, paralelamente, em vez de elevar o livre arbítrio, a emancipação, a auto -determinação, é complacente com esta miséria, consente-a pelo menos tacitamente, em vez de combater activamente ilegítimas hierarquias perversas. Depois anda a carpir os seus mortos.

De resto, nisto as universidades não diferem muito da restante sociedade que muito discute a violência doméstica, o bullying nos liceus ou o assédio laboral mas, dos 18 aos 2O"s, tolera-os e até os exulta. Enfim, um país que para a faixa etária mais decisiva na consolidação de uma identidade profissional e social dá à violência uma moratória sem juros. Isto para as gerações mais preparadas de sempre? Precisamos mesmo de conversar.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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