Burkina Faso: Um golpe inoportuno! (II)

Desde há precisamente uma semana que o golpe do capitão Traoré não traz qualquer novidade, qualquer frisson ou mentira nova, comparativamente ao golpe anterior de há oito meses, do tenente-coronel Damiba, sobre o qual o paradeiro desconhecido, passou a ser oficial no Togo e em boa saúde. Esta é a grande novidade, desde 2 de outubro. Assim sendo e não havendo nada de novo a acrescentar, passo a replicar o artigo que no passado primeiro de outubro assinalou no DN online este "golpe inoportuno", mais um, numa leva que assola a África Ocidental desde agosto de 2020:

"O golpe deste 30 de setembro no Burkina Faso, em nada difere do de há oito meses do tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, agora derrubado pelo capitão Ibrahim Traoré, sendo aqui que reside a diferença, na patente mais baixa, no que também se pode qualificar de geração mais nova. Mas isso é da vida! No que nada difere é na justificação para o golpe, já que o recém-criado Movimento Patriótico para a Salvação e Restauração (MPSR) acusa a Junta de Damiba não conseguir estancar o problema do jihadismo e falta de segurança, precisamente o que Damiba invocou há oito meses para derrubar o presidente Roch Kaboré, reeleito para um segundo mandato em 2020.

A questão da pulverização de grupos jihadistas e milícias étnicas manipulados pelos primeiros infestou ainda mais o Burkina Faso e o Mali desde a saída dos franceses destes territórios (2020). Por outro lado, regista-se uma tendência da atividade de grupos ligados à Al-Qaeda do Magrebe Islâmico e ao Estado Islâmico no sentido sul das fronteiras com o Togo, o Benim, o Gana, a Costa do Marfim, num movimento lógico de tentativa de chegarem ao mar, um novo ponto de apoio, fuga e entrada a criar. A forma de combater estes grupos sempre dividiu os locais enquanto a França teve as rédeas das operações, criticados por malianos e burkinabés que afirmavam que as missões de caça ao terrorista deixavam as populações desprotegidas e sujeitas a vingança. A preocupação "da tropa" deveria ser na defesa das populações e não as empurrar para a órbita dos jihadistas (o surgimento das milícias étnicas tem neste cenário o seu contexto motivador).

Este golpe é inoportuno porque o Burkina já se tinha acertado com a CEDEAO, na marcação de eleições para 2024 (suspensão das sansões da CEDEAO) e também porque nas contas de alguns académicos e analistas, a aposta ia no sentido do Níger. Não, no Níger um imperativo chamado Areva, garante os equilíbrios e a partilha do bolo.

Precisamente a dúvida sobre este golpe. Estando identificados dois grupos, um de coronéis e outro de capitães, resta saber se não haverá uma terceira entidade interessada neste negócio do combate ao jihadismo, numa perspetiva mais macro, naturalmente! Quem é que não estaria a comer deste bolo e movimentou a cavalaria agora?"

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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