Burkina Faso: Um golpe inoportuno!

O golpe deste 30 de setembro no Burkina Faso, em nada difere do de há oito meses do Tenente-Coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, agora derrubado pelo Capitão Ibrahim Traoré, sendo aqui que reside a diferença, na patente mais baixa, no que também se pode qualificar de geração mais nova. Mas isso é da vida! No que nada difere é na justificação para o golpe, já que o recém-criado Movimento Patriótico para a Salvação e Restauração (MPSR) acusa a Junta de Damiba não conseguir estancar o problema do jihadismo e falta de segurança, precisamente o que Damiba invocou há oito meses para derrubar o Presidente Roch Kaboré, reeleito para um segundo mandato em 2020.

A questão da pulverização de grupos jihadistas e milícias étnicas manipulados pelos primeiros infestou ainda mais o Burkina Faso e o Mali desde a saída dos franceses destes territórios (2020). Por outro lado, regista-se uma tendência da actividade de grupos ligados à Al-Qaeda do Magrebe Islâmico e ao Estado Islâmico no sentido sul das fronteiras com o Togo, o Benim, o Gana, a Costa do Marfim, num movimento lógico de tentativa de chegarem ao mar, um novo ponto de apoio, fuga e entrada a criar. A forma de combater estes grupos sempre dividiu os locais enquanto a França teve as rédeas das operações, criticados por malianos e burkinabés que afirmavam que as missões de caça ao terrorista deixavam as populações desprotegidas e sujeitas â vingança. A preocupação "da tropa" deveria ser na defesa das populações e não as empurrar para a órbita dos jihadistas (o surgimento das milícias étnicas tem neste cenário o seu contexto motivador).

Este golpe é inoportuno porque o Burkina já se tinha acertado com a CEDEAO, a marcação de eleições para 2024 e também porque nas contas de alguns académicos e analistas, a aposta ia no sentido do Níger. Não, no Níger um imperativo chamado Areva, garante os equilíbrios e a partilha do bolo.

Precisamente a dúvida sobre este golpe. Estando identificados dois grupos, um de coronéis e outro de capitães, resta saber se não haverá uma terceira entidade interessada neste negócio do combate ao jihadismo, numa perspectiva mais macro, naturalmente! Quem é que não estaria a comer deste bolo e movimentou a cavalaria agora?

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt (em reparação)

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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