Bufo real 

Para começar a preparar as celebrações dos 50 anos do 25 de abril, só faltava mesmo este ataque grave a manifestantes. Oportuno, não é? Esclareça-se desde já que no ordenamento constitucional e legal português nenhuma entidade ou órgão tem o poder de autorizar nem, por maioria de razão, de proibir o exercício do direito de manifestação. Ou seja, nem sequer há o dever de aviso prévio destas reuniões, como se costuma alegar, quanto mais a legitimidade em fichar participantes.

Aliás, até a Amnistia Internacional já veio de declarar que não existe nada no tal Decreto-Lei n.º 406/74 que justifique o envio de informações sensíveis e que ameaçam até a integridade e a vida das pessoas em causa. Invocar os anos 70 (década em que muitos arquivos da Pide foram desviados para a KGB, recorde-se) apenas está a servir para o habitual sacudir a água do capote, a par do "já todos partilharam", o Putin não precisa desses informantes, quem nunca errou atire a primeira pedra, foi um descuido, só se cumpriam ordens (ui), isto apenas surge por causa das eleições (ai).

Fermenta aqui uma dimensão criminal por mais que a queiram diluir, desvalorizar ou relativizar. Qualquer protocolo, prática ou costume que partilhe dados pessoais de promotores de manifestações com representantes dos países estrangeiros contestados é crime. E não apenas de violação da famigerada protecção de dados mas também, possivelmente, crime de suspensão ou restrição ilícita de direitos, liberdades e garantias e crime de abuso de poderes. Pelo menos. Não adianta alegar desconhecimento, distracção. Ignorar a lei não apaga o delito. Crime é crime.

Claro que existem ainda muitos esclarecimentos a prestar e muita informação a apurar. Mas nada poderá embaciar aquilo que é o nervo deste triste episódio da República: a questão política. Afinal, estamos perante uma (ou mais) autarquia bufa, uns paços do conselho feitos agência de espionagem. Veja-se a que ponto estica a hipocrisia política: enquanto andaram a carpir o facto de Lisboa não integrar a rede de cidades-refúgio, defendendo esse estatuto para assegurar os direitos inclusivamente de cidadãos estrangeiros asilando-se de verdugos, transformaram-na numa urbe sem abrigo para activistas e manifestantes. Nos dias ímpares, advogaram a liberdade de expressão e o porto-seguro para o exílio, nos dias pares preferiram a rataria, a bufaria. Lisboa, capital da delação.

Condizente com semelhante ignomínia é a forma como Medina e os partidos que o apoiam têm respondido. Uma coisa é clara: entre a carta da censura; o seu artigo sexto, e o abuso de poderes a reboque da covid, neste momento contamos com muito poucos para a defesa das liberdades públicas. Estamos profundamente sós e desamparados face aos super predadores. Como nunca, neste século. Preparem-se.

E pronto. Um xibo é um xibo. Um xibanço ou uma xibaria é sempre um esgoto doméstico, coisa de fungo ou bactéria, uma subserviência, traição, corrupção. Ética e politicamente não há pior do que ser-se denunciante serviçal, de espinha dobrada (ou sem ela) a entregar a alma do outro ao patrão. Quem é bufo, quem foi bufo, é mesmo o ponto central. Que democracia haverá nas autárquicas sem que se escrutine até ao osso estas ligações perigosas? Serão mesmo eleições?

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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