Breve história de seis delírios 

1 - Há exatamente uma semana, a porta-voz e número 2 do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, a senhora Hua Chunying, publicou dois mapas com a seguinte legenda na sua conta oficial: "Há 38 restaurantes de dumplings e 67 restaurantes de noodles em Taipé. O palato não engana. Taiwan foi sempre parte da China. O filho perdido regressará a casa". Num involuntário e bem-vindo acesso de humor, a diplomacia chinesa recebeu resposta da comunidade internacional. "Cuidado Little Italy", foi uma delas. "Pode usar o Google Maps em Taiwan, na China é que não", foi outra. A imagem dos milhares de restaurantes indianos pelo território chinês e uma piscadela de olho a Narandra Modi, outra. Mas a minha preferida, o leitor que me perdoe o ocidentalismo, foi a imagem dos mais de 8 mil estabelecimentos da icónica Kentucky Fried Chicken (KFC) na China - a maior cadeia de fast-food no país - como prova de que o palato é mau conselheiro em geopolítica.

A retórica chinesa em relação Taiwan escalou após a visita de Nancy Pelosi e isso sentiu-se ao longo da semana e para lá da gastronomia. "Não lhe chamaria invasão, mas estamos prontos para utilizar os nossos meios. Usem a vossa imaginação", sugeriu o embaixador da China em Camberra. Muito curiosamente, as posições mais aguerridas dos diplomatas chineses (o embaixador em Paris insistiu na necessidade de "reeducar" Taiwan) contrastam com o white-paper sobre a ilha que Pequim tornou público há dias, favorecendo termos como "reunificação pacífica" e "acomodação dos interesses e sentimentos dos nossos compatriotas". Essa bipolaridade da política externa chinesa não é nova - as suas faces também alternaram no primeiro ano de pandemia -, mas a tensão em torno de Taiwan veio acentuá-la. O contraste entre a intensidade dos exercícios militares em redor da ilha e a serenidade de Xi Jinping antes e depois da visita, falando com Biden e agendando um encontro entre ambos para este outono, é outro exemplo disso.

Esperemos que Telheiras, profícua em restaurantes chineses, consiga escapar à anexação.

2 - Não foi só a China, nestes sete dias, que endureceu a sua posição sobre Taiwan. O Ocidente fez-se igualmente ouvir de forma um tanto surpreendente. O governo britânico chamou o embaixador chinês para dar explicações sobre "o comportamento ameaçador dos últimos meses". A ministra alemã dos Negócios Estrangeiros recordou "as lições que aprendemos desde 24 de fevereiro", quando Putin invadiu a Ucrânia, e o que nos ensinam sobre Taiwan. A Suíça anunciou que se associaria a sanções contra a China caso a situação se agravasse, abandonando a sua tradição de neutralidade pela segunda vez este ano. O chefe do Estado Maior da Armada francesa apelou a uma união entre aliados contra novas ameaças navais ("só unidos venceremos"). Deputados de mais de 20 países, incluindo Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Canadá, Espanha e Bélgica, assinaram uma carta de apoio a Taiwan. E a presidente do parlamento lituano convidará os seus homólogos europeus a visitarem a ilha a seu lado.

Ao fim de quase 50 anos de democracia, o silêncio de Portugal diante tudo isto é vergonhoso.

3 - Do outro lado do oceano, a semana pecou por idêntica falta de lucidez.

Face às buscas de que a casa de férias de Donald Trump foi alvo, o Partido Republicano decidiu fazer campanha para as intercalares contra o FBI. "Temos de destruir o FBI. Temos de salvar a América", escreveu um congressista. "Se levarem o nosso presidente, levam connosco", prometeu uma candidata. Como é que um partido alegadamente conservador planeia, depois de apoiar um demente para a Casa Branca e uma insurreição contra o Capitólio, apelar à destruição de uma força de segurança é algo do domínio do surrealismo. O atual diretor do FBI foi escolhido pessoalmente por Trump, quando era presidente, e a agência federal nunca, na sua história, foi liderada por um membro dos democratas.

O grau de alucinação naquela que é a primeira república constitucional do planeta começa a ser um perigo para si própria, e para o resto do mundo. Entre a realidade alternativa da política americana e a realidade alternativa do partido comunista chinês, o futuro não pode ser risonho.

4 - No Reino Unido, que poderia surgir como exceção mais sã, Liz Truss, a mulher que está à beira de ser primeira-ministra, proclamou o combate contra "o antissemitismo na função pública", apesar de não haver qualquer estudo ou dado oficial que dê os funcionários públicos britânicos como próximos do dito. Noutras declarações dignas de análise, eventualmente médica, Truss revelou ter "um bom relacionamento com Larry", na esperança que seja ainda melhor quando chegar a Downing Street.

Sendo que Larry, para quem não saiba, é um gato.

5 - Por cá, o Presidente da República concedeu uma rodoviária entrevista em registo conversacional, elogiando a direita (que "renascerá como alternativa") e advertindo a esquerda (demasiado dependente do "mata-borrão" que é Costa), da qual ficou uma injusta canelada à classe médica. Sobre as escusas de responsabilidade, Marcelo avisa que não têm "validade jurídica" e que podem levar à "perda de razão" por parte dos médicos. Ora é precisamente esse o ponto. As escusas de responsabilidade não têm qualquer valor em tribunal. O que significa que os médicos, que não deixam de ir trabalhar por isso, as assinam como sinal de alerta, de desespero, de falta de meios.

Se havia alguém com popularidade e força para apoiar esse sinal, era o Presidente.

Infelizmente, não o fez.

6 - Também por cá, a ministra da Agricultura respondeu aos pedidos de ajuda devido à seca com "é melhor perguntar à CAP [que representa o setor] porque é que aconselhou os eleitores a não votarem no Partido Socialista". A pequenez e maldade de tais declarações deveriam ser suficientes para, no mínimo, um pedido de desculpas.

A maioria absoluta que António Costa prometeu - aberta, dialogante, transparente - tem sido o oposto disso. E ainda agora começou.

Colunista

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