Bolsonaro Store

Publicado a
Atualizado a

Juscelino Filho, ministro das Comunicações de Lula da Silva, classificou como "urgente" a participação num leilão milionário de cavalos e, por isso, viajou num jato da força aérea, pago por todos os brasileiros, para o evento, no interior de São Paulo, informa o jornal O Estado de S. Paulo.

Indicado pelo União Brasil, partido que decidiu apoiar o atual governo no Congresso, em troca de um par de ministérios, mesmo resultando da fusão do PSL, ex-formação de Jair Bolsonaro, e de um herdeiro do ARENA, sustentáculo da ditadura, o ministro já havia sido notícia por ter usado uma verba, destinada aos habitantes do miserável município do Maranhão de onde provém, para asfaltar estradas mas apenas as que ligam as suas oito fazendas.

Uma oposição normal esfregaria as mãos porque cada minuto a mais de Juscelino no cargo traz consequências terríveis para Lula. Mas a oposição, liderada por um sujeito a morar nos arredores da Disneyworld, não é normal: ela esfrega as mãos, sim, mas só porque encontrou mais uma forma de lucrar com a estupidez bíblica dos seus apoiantes -- a Bolsonaro Store.

Com o deputado Eduardo Bolsonaro, filho 03, como "garoto propaganda", a Bolsonaro Store anuncia vasta gama de produtos, de tábuas para cortar carne a canecas para tomar chope, com a silhueta do ex-presidente. Afinal, uma cópia tropical da Trump Store porque a direita brasileira ama reproduzir tudo o que de mais pavoroso o primo rico EUA produz, da fast food aos mass shootings, tudo em inglês, como store, porque é muito mais chique.

De acordo com o marketeer Eduardo, o item "mais charmoso" da loja é um calendário cuja "versão mesa" custa o equivalente a nove euros. A "versão parede" quase 11. Com fotos, frases e realizações diárias de Bolsonaro, "a ideia do calendário", diz Eduardo, "é manter vivo na memória tudo aquilo que foi feito".

Como este texto é publicado na edição do DN no dia 2 de março, revisitemos esse dia nos quatro anos do bolsonarismo, para manter vivo na memória tudo aquilo que foi feito.

No 2 de março do ano passado, vivia-se o escândalo no Ministério da Educação, desvendado pelo jornal Folha de S. Paulo, da transferência de verbas públicas apenas para os municípios cujos autarcas aceitassem pagar, em dinheiro ou barras de ouro, uma comissão a dois reverendos, amigos do ministro, também ele pastor.

A 2 de março de 2021, o Brasil batia mais um recorde, 1726, de mortes diárias por covid-19, enquanto no Planalto se obstruía a compra de vacinas por, segundo o então presidente, propagarem o vírus HIV.

A 2 de março de 2020, era publicado um levantamento inédito da Agência Pública a indicar que os processos de exploração em terras indígenas da Amazónia cresceram 91% só no primeiro ano do governo Bolsonaro.

E a 2 de março de 2019 morria, aos sete anos, vítima de infeção generalizada, o menino Arthur, neto de Lula, na altura detido numa cela em Curitiba mas autorizado pela justiça a participar no velório sob escolta da polícia.

"O Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado", reagiu naquele 2 de março o vendedor de calendários Eduardo Bolsonaro.

Nada como um calendário para manter vivo na memória tudo aquilo que foi feito. E dito.


Jornalista, correspondente em São Paulo

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt