Bolsonaro enterrado em Windsor

A visita eleitoreira de Jair Bolsonaro e comitiva, composta por pastores e influencers, ao enterro da rainha de Inglaterra, soa a epílogo do período mais nonsense da História de 200 Anos do Brasil.

Bolsonaro discursou da varanda do hotel, em Londres, sobre ideologia de género, aborto e os perigos da esquerda para apoiantes, que, lá em baixo, hostilizavam quem os contrariasse. Rosnou ainda que se não tiver 60% na primeira volta, será por culpa do Tribunal Eleitoral, apesar de todas as sondagens darem o rival, Lula, e não ele, no limiar da vitória.

Também gravou um vídeo num posto de gasolina, para provar que no Brasil o combustível está mais barato do que em Inglaterra. E foi bombardeado pela imprensa britânica por levar a campanha política para as cerimónias.

No fim, após aproveitar o enterro de Isabel II para fazer campanha eleitoral, brigou com jornalistas que perguntaram se ele não tinha aproveitado o enterro de Isabel II para fazer campanha eleitoral.

Balanço da visita: pisou mais uma vez na imagem internacional do Brasil, atormentou os ingleses e não ganhou um voto.

Se este descalabro é o epílogo, ainda antes da condução assassina da pandemia, do regresso do país ao Mapa da Fome da ONU e da destruição ambiental se tornarem as marcas do bolsonarismo, um singelo episódio marca o prólogo do desgoverno de Bolsonaro, quando, logo após eleito, prometeu transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

Criou um problema com os países árabes que, ofendidos, ameaçaram boicotar a importação de carne brasileira, e com os israelitas porque, obrigado a recuar, descumpriu a promessa. E o problema nem sequer existia.

"A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todo o lado, diagnosticá-los incorretamente e aplicar os piores remédios para os resolver", dizia Groucho Marx, o maior expoente do nonsense até ser desbancado do cargo por Bolsonaro, um discípulo involuntário de Marx, o Groucho, e especialista em desagradar gregos e troianos (agrada só aos cretinos).

Conforme a classificação do economista italiano Carlo Cipolla, os inteligentes conseguem, pelas suas ações, criar vantagens para si e para os outros, os bandidos só vantagens para si, os crédulos só vantagens para os outros, e os estúpidos desvantagens para toda a gente - o presidente do Brasil pertence, com todos os méritos, ao quarto grupo.

Teve a sorte, no entanto, de navegar no último dos estágios da estupidez na política, conforme descrição de Andy Borowitz, em Perfis na Ignorância: como os políticos americanos se tornaram mais e mais burros, lançado na semana passada nos EUA.

O primeiro estágio, a que pertencia, por exemplo, o desastrado vice-presidente americano Dan Quayle, era aquele em que os políticos se envergonhavam das suas asneiras.

O segundo, representado pelo presidente George W. Bush, é o da aceitação da estupidez - ao admitir nunca ter lido um livro, W aproximava-se, segundo os seus estrategas, da maioria do povo americano (foi o período em que Mitt Romney teve de esconder que falava francês para não perder votos republicanos).

E o terceiro, representado por Donald Trump, o da glorificação da incompetência, desde que a legião de imbecis de internet encontre eco neles, como dizia o Umberto.

Até quando essa legião vai governar? Nos EUA, foi até 2021. No Brasil, ao que tudo indica, até dia 2 ou 30 de outubro, o mais tardar.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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