Birras, vazios e o que importa

A campanha eleitoral em curso já permitiu, e ainda antes do debate entre António Costa e Rui Rio, verificar algumas coisas.

Uma delas é o total vazio político assumido por André Ventura, que vive de ataquezinhos e meias-palavras para cativar um eleitorado descrente da democracia e saudoso da União Nacional, alimentado pelo medo do que não conhece nem quer conhecer e pelo que sente epidermicamente como injustiças absolutas do seu quotidiano, existam elas ou não.

A campanha tem também permitido confirmar que Bloco de Esquerda e Partido Comunista estão em dificuldades para justificar a sua recusa na aprovação do último Orçamento e as subsequentes eleições legislativas. Os debates televisivos têm mostrado que as birras à esquerda que impediram a aprovação do Orçamento apresentado pelo governo significaram apenas isso: momentos de afirmação taticista, pensando num eventual ganho de vantagem, mesmo que ligeiro, antes que, na sua perspetiva, fosse tarde de mais para manterem a sua identidade e se prepararem para uma viragem à direita, que virá um dia.

Iniciativa Liberal, CDS, PAN e Livre têm feito o melhor que conseguem, procurando cativar aqueles a quem o pragmatismo na escolha de um dos maiores partidos, à esquerda ou à direita, não convença, o que significará uma votação reduzida, mas relevante para o seu futuro e dos seus projetos e para um tempo de eventuais coligações, em que cada voto pode contar.

António Costa tem sido seguro e claro nas afirmações públicas que tem feito. Sendo primeiro-ministro há mais de seis anos, e na chefia de um governo que, desde março de 2020, teve de assumir a luta contra a pandemia, um tempo extraordinariamente difícil para quem liderou, poderia ser vítima do desgaste normal da passagem do tempo ou dos erros que sempre existem numa governação. Contudo, a sua posição natural de figura de bom senso e de decisor pragmático, o que concilia como mais ninguém hoje, sem estados de alma aparentes e sem devoções ou ódios especialmente visíveis, torna-o no primeiro-ministro ideal para este tempo. Hoje, para o bem e para o mal, o PS é, como nunca, António Costa - e, depois, logo se verá. E o que António Costa oferece é mais uma legislatura de governação de bom senso, sem grandes erros nem grandes rasgos, mas confiável e previsível.

Rui Rio - e o seu PSD algo exótico, afastados os desafios internos - está a tentar provar que poderá ser o mesmo político confiável e de bom senso. Com a dificuldade de não ter atrás de si seis anos de provas diárias de governação e da dependência, desconhecida, mas provável, de partidos como a IL ou o Chega para poder governar, a par do CDS. Esta é também a sua grande limitação. Ninguém acreditando que possa governar sozinho, torna-se mais difícil captar o centro ideológico, onde se ganham as eleições.

O que esperar então das próximas semanas? Não se prevendo agora que a pandemia traga dramas adicionais nos internamentos e nos óbitos, e não havendo surpresas extraordinárias entretanto, o trabalho mais exigente está naturalmente a cargo de Rui Rio. É ele que tem de demonstrar que merece ser alternativa a António Costa e ao PS, com a eventual dificuldade de se ter apresentado como um candidato mais ao centro do que os seus antecessores no PSD, no que colide também com o PS, o que Rio pretende transformar em vantagem. Mas com uma dificuldade adicional: António Costa já demonstrou que é capaz de desencantar acordos pragmáticos mesmo quando não eram antecipáveis, desde logo para assegurar a estabilidade de um governo e, aspeto muito relevante, a afirmação do seu programa. Rui Rio, que publicamente parece surgir como uma personalidade mais emocional e imprevisível do que Costa, terá de convencer que é capaz de fazer o impossível: recolher votos ao centro e governar com a direita a condicioná-lo, sem se perceber exatamente que direita será essa e quais as consequências dessa associação.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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