Biden, "socialista" e imperialista?

O presidente Joe Biden está a surpreender meio mundo. Em cem dias de governação, o democrata, considerado toda a vida um "centrista", deu um estrondoso pontapé em quatro décadas de thatcherismo e reaganismo e propôs três pacotes financeiros de estímulo à economia no total de seis biliões de dólares (cinco biliões de euros).

Os analistas já se apressaram a equipará-lo aos presidentes Franklin Roosevelt e Lyndon Johnson, que, respetivamente nos anos 30 e 60 do século passado, alargaram o papel do Estado na economia americana, como forma de fazer face a duas grandes crises que punham em risco a própria existência do país: a grande depressão e os protestos dos movimentos pelos direitos civis.

Tal como nesses dois períodos, os EUA também enfrentaram, após a imprevista eleição de Trump, em 2016, uma crise múltipla que ameaçou a existência e, sobretudo, o papel global do país como principal potência mundial.

Desde logo, as opções do trumpismo - uma combinação explosiva de nacionalismo, supremacismo branco, negacionismo, autocracia e corrupção, no plano interno, e o abandono, no plano externo, do multilaterialismo - ameaçavam relegar os EUA para um lugar de potencial marginalização no cenário global.

Por outro lado, a pandemia de covid -19 veio pôr a nu a total incapacidade, interna e externa, desse modelo. Internamente, o trumpismo não se limitou a acentuar as divisões e as feridas provocadas pelo pecado original do país - o racismo -, como desconseguiu (querido editor, deixe passar este neologismo angolano!) controlar a pandemia e manter a economia a funcionar.

Era preciso, pois, encontrar um adulto para pôr ordem quer nos EUA quer na casa-mundo. Biden foi o escolhido. Os três pacotes financeiros que propôs - o primeiro para ajudar pequenas empresas, pagar um auxílio emergencial aos mais pobres e aumentar o prazo do seguro-desemprego; o segundo para financiar um programa de investimentos em infraestruturas; e o terceiro para investir em educação, em especial no ensino superior técnico e na pesquisa científica e tecnológica - parecem justificar plenamente a escolha, pelo menos no plano interno. Mas dizer, como alguns, que ele é um "estatizante" ou até um "socialista" é um exagero óbvio.

Diga-se: se todos os planos de Joe Biden forem aprovados, o aumento de gastos no orçamento americano será de 1,5% a 2% do PIB, a cobrir com aumentos de arrecadação e de impostos sobre as maiores empresas e 1% dos americanos mais ricos. Não, os EUA não vão virar uma Escandinávia. Mas as "novas" políticas do presidente americano têm uma vantagem, podendo servir de exemplo a outros países: mostram que é possível, no mínimo, remendar os efeitos da desigualdade crescente engendrada pelo neoliberalismo desde os anos 80 do século XX.

Já no plano externo, a história é diferente. Se Biden não é "socialista", continua a ser imperialista (sem aspas). Não é preciso sequer falar do bombardeio da Síria ou das atuais políticas da Casa Branca em relação à China ou à Rússia: basta lembrar que o orçamento do Pentágono do próximo ano fiscal foi aumentado em 1,7%.

É a História (com agá grande). De facto, como esperar que a principal potência de cada período histórico não seja imperialista? É verdade que a História também mostra que todos os impérios caem, mas isso é outra história.

Escritor e jornalista angolano. Diretor da revista África 21

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