Bancos multilaterais e controlo do sistema financeiro internacional

A evolução da globalização, com uma mudança na relevância das geografias nas trocas comerciais (com crescimento gradual na orla da Ásia-Pacífico e uma redução na área do Atlântico e também mais comércio sul-sul) e no sentido dos fluxos (mais bidirecionais entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento) está a mudar a paisagem também no que tange à parafernália de organizações financeiras multilaterais.

Para além do Banco Mundial (BIRD + AID + CFI) e do FMI, emergindo de Bretton Woods em 1944, foram criados nas décadas seguintes vários bancos multilaterais para o desenvolvimento - o Banco Africano de Desenvolvimento (BAfD), o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Árabe para o Desenvolvimento Económico da África (ABEDA), o Banco Islâmico de Desenvolvimento (IsDB), o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).

Mais recentemente merecem realce a criação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) e do Novo Banco de Desenvolvimento /Banco dos BRICS (NBD).

A criação destes mais recentes novos bancos multilaterais vem bulir com o rácio subjacente a anteriores bancos multilaterais, em especial o AIIB.

Por que razão foi criado o AIIB? Por várias razões, sendo que a principal radica na efetiva necessidade de fazer muito investimento em infraestruturas na Ásia. Mas porque não usar para o efeito o ADB ou o BIRD, que já financiam muitos projetos de infraestruturas na Ásia? Porque uma série de países asiáticos com economias em crescimento contínuo acelerado não estão disponíveis para fazer essas contribuições de capital adicionais através do ADB e do BIRD; e não estão porque a distribuição de capital social e direitos de voto nesses bancos não reflete a realidade económica atual e visa a perpetuação de um old boys club; por exemplo, no caso do ADB a presidência do banco foi sempre japonesa, no caso do Banco Mundial americana e no caso no FMI europeia. Nos últimos 20 anos vários países asiáticos, e não só, propuseram a alteração desse statu quo. Essa alteração era aceite pela generalidade dos países com exceção dos EUA que sempre negaram essa possibilidade. As novas potências emergentes - desde logo a China e a Índia, mas também outros países relevantes, sobretudo se atentarmos nas projeções de crescimento económico a longo prazo - constataram a inflexibilidade americana e criaram um novo banco multilateral que reflita a realidade económica multipolar atual. Por isso o AIIB tem sede em Beijing e os seus três principais acionistas são a China (com 26,5% do capital social), a Índia (com 7,6%) e a Rússia (com 6%). Mas países aliados dos EUA como Austrália, Coreia do Sul, Israel, Singapura, Tailândia, são membros fundadores. Como o são também os maiores acionistas não asiáticos do AIIB - a Alemanha (4,2%), a França (3,2%), o Reino Unido (2,9%) - e Portugal.

Se tivesse havido bom senso e ponderação dos EUA, teria sido possível reformar e melhorar os bancos multilaterais existentes sem necessidade de criar novos. Mas o desejo de continuar a controlar o sistema financeiro internacional fala mais alto. E leva à adoção de uma política que no longo prazo é prejudicial para uma ordem financeira internacional estável.

Consultor financeiro e business developer
www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira

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