Bancos e seguradoras alinhados nos riscos ESG

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Vivemos tempos impensáveis, marcados por instabilidade geopolítica, eventos climáticos extremos, volatilidade económica e uma guerra eminente, em que tudo temos de fazer para evitar. Contudo, apesar deste contexto turbulento, no qual a voz do presidente americano defende que “não gosta de ventoinhas” e que os temas ESG são um disparate, na semana passada as três Autoridades Europeias de Supervisão Financeira - EBA (bancos), EIOPA (seguros) e ESMA (mercados financeiros) - lançaram as Joint Guidelines on ESG Stress Testing, com o objetivo de garantir que todas as autoridades nacionais europeias integrem os riscos ESG nos seus testes de esforço, de forma a garantir a estabilidade financeira da economia europeia. A tendência de colocar testes de stress climáticos obrigatórios é visível na Europa, Inglaterra, Canadá. A China e o Japão também já têm realizado estes testes ainda de forma não-obrigatória, estando assim totalmente alinhados com a abordagem Europeia.

Na realidade, apenas o presidente dos EUA afirma que os riscos climáticos não são relevantes, e tendo a Reserva Federal Americana (Fed) parado o trabalho anteriormente desenvolvido nesta matéria, Lisa Cook, da Fed, ainda consegue ter espaço para admitir, em outubro de 2025, que: “Na medida em que eventos climáticos severos podem causar perturbações em empresas específicas ou no sistema financeiro, espero que os grandes bancos procurem ser proativos na monitorização, avaliação e abordagem adequada desses riscos. Também acredito que é vantajoso para o setor bancário ter expectativas de supervisão estáveis e bem compreendidas. Apesar da decisão do Conselho de revogar esses princípios, espero que os grandes bancos continuem a encontrar valor no monitoramento de seus riscos relacionados ao clima.”

Penso que não há dúvida nenhuma, nem mesmo pelo lado americano, de que os eventos climáticos podem causar danos financeiros que, sendo significativos, devem ser acautelados pelos bancos. A diferença é que, atualmente, nos EUA, a Fed deixa esse risco “solto”, enquanto que no resto do mundo os bancos centrais querem controlar esse risco de forma a contribuir para uma estabilidade económica (que também parece não ser a ambição do presidente americano).

Para reforçar a importância de todas as empresas manterem os temas climáticos e de ESG na sua gestão, a EBA, EIOPA e ESMA lançaram as Joint Guidelines on ESG Stress Testing, que estabelece padrões comuns para que bancos e seguradoras avaliem impactos de cenários adversos decorrentes de riscos ambientais, sociais e de governação, demonstrando que o ESG passou a ser entendido como risco prudencial, e não como um apêndice voluntário de sustentabilidade. Estas avaliações irão obviamente impactar as empresas clientes dos bancos e seguradoras, uma vez que estas terão de informar como estão a gerir os riscos ESG. É o chamado efeito em cascata, em que o financiador tem um estímulo em financiar e segurar aqueles que apresentam uma melhor gestão do risco ESG.

Assim a integração dos riscos ESG nos testes de esforço tenderá a ser obrigatória num futuro próximo, impondo abordagens baseadas na materialidade, exposição setorial, riscos físicos e de transição, e metodologias alinhadas com os objetivos climáticos da UE. Ou seja, o sistema financeiro europeu deixou claro que a subavaliação destes riscos constitui uma falha de gestão.

A convergência regulatória é inequívoca: quando as três autoridades europeias de supervisão se unem para produzir orientações conjuntas e as tornam parte integrante das regras prudenciais, o ESG deixa oficialmente de ser um tema “voluntário”. Passa a ser contabilizado como risco económico mensurável, quantificável e com impacto concreto nos balanços.

É de realçar que isto acontece mesmo quando a política avança de forma irregular, sendo assim possível afirmar que os mercados continuam a ajustar-se à nova realidade, mesmo quando os governos falham em fazê-lo, porque os custos de inação já são reais para investidores, bancos e seguradoras. Os incentivos económicos, não a ética ou valores morais/ideológicos, são agora o motor da transição.

Num ambiente económico volátil, o realismo financeiro exige que os riscos ESG sejam tratados como aquilo que verdadeiramente são: riscos económicos fundamentais. Não devem ser ignorados ou esquecidos. A China e o Japão não os esquecem e avançam nesta área de forma acelerada. Tal como a Europa, Canadá e Inglaterra. Ou seja, praticamente todo o mundo está de acordo, incluindo muitos casos em África também.

PhD, CEO da Systemic

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