Ausentes presentes – o debate das rádios

Tendo visto todos os debates televisivos por premissa profissional, fiquei ontem com a impressão de que o embate radiofónico entre todos - ou quase todos - os líderes com assento parlamentar foi um dos melhores momentos da campanha eleitoral.

Teve significado político, qualidade nos argumentos, questões por fim clarificadas e alguns sinais para futuro. Soberbamente moderado, foi um debate equilibrado nos tempos e nos tons. O vencedor, para mim, foi o improvável João Oliveira. Os derrotados, improvavelmente para mim, foram os pequenos partidos da direita democrática ali presentes.

Costa, como em todos os outros confrontos, não conseguiu vencer ou fazer-se valer. Rio, como em todos os outros confrontos, não compareceu - desta vez também fisicamente. A sua ausência, assim como a de André Ventura e com as mesmas justificações, é compreensível. Se o país esteve em teletrabalho durante meio ano, não há razão nenhuma para dois políticos não poderem participar num debate - ainda por cima na rádio - por via remota. Ficaram no norte e ficaram bem. Já os demais tiveram atuações díspares.

Rui Tavares, cujo fator novidade vinha dispersando depois de uma primeira semana fulgurante nas televisões, encostou o primeiro-ministro à parede na temática das energias. A despropósito, António Costa tentou atacar o cabeça-de-lista do Livre com o seu programa mas acabou a receber um memorando sobre as iniciativas do seu próprio governo na União Europeia, em consonância com o que Tavares propõe aos seus eleitores. Foi um minuto delicado para Costa, que tem sentido dificuldades nos polígrafos.

Não houve, de resto, novidades no discurso do primeiro-ministro. Mais uma vez, pediu a maioria absoluta que antes desconsiderava e mais uma vez tentou relativizá-la com a figura do Presidente da República e variadíssimas juras de moderação - das quais, admito, não desconfio quando comparadas com as do Dr. Rio. A sua declaração mais franca foi o par de suspiros que soltou enquanto Catarina Martins - já pronta para regressar à oposição - se dedicava às suas didascálias. O volte-face de Costa, não confirmando que prescindirá do PSD depois de dia 30, foi suave mas visível. Até Manuel Monteiro e o Orçamento que negociou no primeiro ano de António Guterres foram recordados.

Os ausentes da arena foram, apesar de tudo isso, os mais presentes. Jerónimo esteve presente, sem dúvida, na mensagem que João Oliveira procurou transmitir. O PCP já não veste a pele do partido do protesto e contra a governação - seja ela qual for -, mas antes uma lustrosa capa de "força de convergência". Tendo Jerónimo de Sousa sido um dos grandes defensores da solução política conhecida por geringonça, a vénia ficou feita - e com eficácia. Oliveira trouxe propostas do seu partido sobre a habitação e a demografia e esteve mais à vontade do que nas aparições no pequeno ecrã. Disparava pequenos apartes bem-dispostos (sobre a energia nuclear assinalou "a bomba atómica na ecogeringonça" que ocorreu, de facto, no debate) e conciliou conhecimento da realidade dos portugueses, dimensão política e empatia humana. Foi, palavra, uma belíssima performance do líder parlamentar comunista.

A direita, e continuando nos ausentes presentes, podia ter aproveitado as ausências de Rio e Ventura para apresentar uma visão alternativa e valorativa do seu voto. Mas não. Cotrim, que tem feito uma campanha sólida, encarnou Rui Rio, e criticou violentamente a comunicação social por falta de escrutínio aos governos de Costa. De seguida, atacou com a mesma veemência Rui Tavares por este considerar que uma maioria parlamentar das esquerdas é mais legítima do que uma eventual maioria parlamentar das direitas, sendo que o próprio Cotrim vem repetindo que nunca assinaria acordos com o Chega, logo, impossibilitando essa maioria.

Rodrigues dos Santos, que surpreendeu tudo e todos nos debates, escorregou nas medidas para a sua área predileta - a Defesa -, não trazendo nada de novo face ao que foi discutido na passada legislatura - a criação de um quadro de praças e a revisão do conceito estratégico nacional - e insistiu na ideia errada de que "o voto útil acabou" por não ter governado o partido mais votado em 2015. Olhando para as sondagens e para os resultados de 2019, a cultura de voto útil não foi a lado nenhum. Nenhum pequeno partido deve iludir-se a esse respeito.

O debate? Uma maravilha.

Colunista

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