ASML não dorme: menos gestão, mais engenharia

O exemplo da gigante neerlandesa revela a urgência de uma Europa que saiba transformar os seus princípios éticos em riqueza económica e agilidade operacional.
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A Europa teve esta semana uma lição de pragmatismo vinda de Veldhoven, nos Países Baixos. A ASML, a tecnológica mais valiosa do Velho Continente e peça fundamental na produção dos chips que alimentam a Inteligência Artificial (IA) da Nvidia, anunciou resultados históricos, de 13,2 mil milhões de euros em encomendas. Mas, apesar disso, a gigante neerlandesa não se mantém imóvel e revela uma coragem estrutural exemplar: para garantir que o seu "motor de inovação" não gripa, anunciou a eliminação de 3000 cargos de gestão para contratar mais engenheiros. É um movimento audaz de "limpeza" burocrática que serve (ou deveria servir) de aviso ao ecossistema europeu: o sucesso não é um estado permanente e a agilidade é a única defesa contra a obsolescência.

Numa Europa que teima em "ficar à sombra da bananeira" sempre que alcança um patamar de sucesso, este exemplo da ASML deveria ser a norma e não a exceção. A complexidade organizacional estava a impedir os engenheiros de inovarem, disse Christophe Fouquet, CEO da ASML. Ouçam-no os CEO de mais empresas europeias, por favor. E mais eurocratas e outros políticos. Permitam que se aja rapidamente para reestruturar equipas de acordo com as exigências do mercado presente e futuro. Não podemos permitir que o excesso de camadas de decisão asfixie a capacidade técnica.

Não nos falta talento para competir com os gigantes americanos ou asiáticos. Como revelam dados do Eurostat de dezembro de 2025, o cidadão europeu é, até, individualmente mais ágil do que o americano: 32,7% da população da UE já utiliza ferramentas de IA generativa, superando os 28,3% dos EUA. O que falta na Europa é a coragem organizacional para ir buscar esse talento onde ele está e dar-lhe as ferramentas — e a liberdade — para produzir. Como sublinha o Relatório Draghi, o problema não é a capacidade intelectual, mas a incapacidade crónica de transformar ideias em gigantes globais por falta de escala e de investimento.

Esta necessidade de agilidade económica prende-se com uma questão de sobrevivência civilizacional. Na Europa, preocupamo-nos — e bem — com as questões de princípio. Paulo Cunha, eurodeputado e relator da nova Convenção sobre IA, descreve — numa entrevista publicada esta sexta-feira na edição impressa do DV/DN e que poderá ler este fim de semana no digital — o novo tratado internacional como uma "Constituição para a IA", um passo essencial para proteger os direitos fundamentais e a democracia.

No entanto, é imperativo compreender que não podemos viver apenas de princípios. Temos de ter dinheiro para os pagar. Sem uma economia forte, sem empresas líderes que gerem riqueza, a nossa capacidade de defender o Estado de Direito e os direitos sociais será meramente teórica.

A lição da ASML é o exemplo acabado que a Europa tem de olhar muito a sério. A inovação exige recursos redirecionados para onde eles realmente contam: para quem cria. Precisamos “para ontem” de reformas como a União dos Mercados de Capitais, liderada pela comissária Maria Luís Albuquerque, para que as poupanças europeias financiem o risco e não apenas a estagnação. É que uma ASML não chega num mundo em que há a Alphabet, a Meta, a Apple, a Microsoft, a Amazon, a Samsung, a TCL… Precisávamos de mais umas cinco ou seis ou dez. E isso, por mais que olhemos a Europa através das lentes cor de rosa dos nossos princípios civilizacionais, continua a ser uma miragem.

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