"Quiero fer uma prosa em román paladino en la cual suele el pueblo fablar a su vecino" Gonzalo de Berceo, Vida de Santo Domingo de Silos.Il y a plus de quarante ans que je dis de la prose sans que j"en susse rien! Molière, Le Bourgeois Gentilhomme.A escritora russa Maria Stepanova fez, em entrevista ao Público (por Isabel Lucas), uma afirmação, simples e enigmática, que me interpelou. Contava que desde que começou a escrever continuadamente em prosa deixou a poesia (ou a Poesia deixou-a, como eu prefiro metafisicamente dizer)..Com as devidas distâncias (ela escreveu um romance e publicou-o, eu estou a escrever um livro de viagens que ainda hesita e roda sobre si próprio), o mesmo se passa comigo, desde que comecei a escrever mais amiúde em prosa. A poesia vem menos ao meu encontro....Será a poesia "saudade da prosa", como dizia Manuel António Pina? Ou será a poesia "uma prosa lenta", como sugeria Nicholson Baker? Talvez nesta fase da minha vida a instantaneidade abrupta da poesia tenha deixado de me bastar; ou então, perdidas essas bruscas iluminações no meio da noite, pode ser que eu agora tente fazer o fogo dentro de mim laboriosamente, lentamente, com esforço e paciência..Mas a prosa é hoje tiranicamente dominada pela forma romance e, por muito que alguns romances tenham sido determinantes na minha formação e na minha educação sentimental, sempre me senti incapaz de elaborar nessa forma, não apenas por temor da sua rigidez oitocentista (Kundera, Sterne, Diderot e até Camilo ensinaram-me o contrário), mas talvez por essa essencial preguiça de que o meu amigo Mário Cláudio acusa (ironicamente) os poetas. Ou porque, queirosiano ferrenho de muitas e repetidas leituras, sempre me senti impotente diante daquela construção forte e cristalina. E o romance moderno, com Proust e Joyce, em nada me ajudou a superar esse receio..Ainda assim, num volumezinho chamado Correspondência Secreta, que tentei e publiquei em tempos idos, atrevi-me a uma forma, que pretendi fosse um romance, feito só de monólogos e de poemas. Esse livro foi já em tempo devido guilhotinado pelos seus editores, hoje é apenas um fantasma. Conheci depois o excelente romance em sonetos de Vikram Seth, The Golden Gate, iluminei-me de inveja e não voltei a tentar..Que fazer então, quando a poesia não chega? Incapaz de me calar e de não escrever (a única solução que seria razoável), dediquei-me a esta viagem em volta do meu quarto, neste caso a minha cabeça e as memórias que sem fim ela produz e me traz..Entretanto, o mundo brilha impetuosamente à porta do quarto, cheio de som e de fúria, de beleza e de horror, o vento desfaz lá fora as cordas que sustentam as nossas certezas e há um rumor de guerra na linha do horizonte. Mas não foi sempre assim?.Reencontrar a prosa do mundo, assumir com a mesma alegria a farsa e a tragédia de que somos feitos, olhar para fora, olhar o mundo sem nos enrolarmos em nós próprios, na concha das nossas convicções, no refúgio do nosso passado. Tudo está à frente de nós, mesmo que o nosso tempo tenha fugido: os jovens farão o seu futuro daquilo que nós deixámos..Apostemos que a prosa do mundo poderá vir a tornar-se uma poesia vertiginosa.. Diplomata e escritor