As palavras perdidas

Todos os dias se ganham novas palavras, enquanto outras levam sumiço. Quando se fala de património cultural imaterial é o mundo das palavras um dos que mais importa. A língua é uma realidade viva que nos interpela, não como gramáticos, mas como pessoas que precisam de comunicar, usando a tradição e a criatividade. António Mega Ferreira, que nos tem dado maravilhosos reportórios culturais, acaba de nos presentear com o Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas (Tinta da China, 2022). É um pequeno e delicioso dicionário de inesperadas palavras, que vão desaparecendo do uso comum, mas que nos dizem muito. Muitas desapareceram por falta de uso e pela evolução natural da sociedade moderna, e outras foram-se perdendo, quase por encanto, pelo empobrecimento da expressão popular ou pela influência de outras culturas e dos meios audiovisuais.

A lista de palavras é elucidativa e em cada uma delas lembramos porventura uma pessoa concreta a dizer essas palavras perdidas - que já não está cá para as repetir. Hoje é impensável ouvirmos uma tia velha perguntar pelos petizes lá de casa. Os aeroplanos também há muito desapareceram; os alfarrábios existem apenas em baús antigos que se perdem na nossa lembrança; o anis está no olvido de muitos; as botas de elástico, associadas pelo autor a Salazar, por associação à memória do antigo integralista Hipólito Raposo, desapareceram dos discursos e das sapatarias e os que eram designados como botas de elástico tomaram outras designações, já sem a companhia dos "mangas de alpaca" ... Ninguém vai rebater uma cautela da lotaria à tabacaria da esquina, e também as capelistas de bairro, a vender linhas, botões, colchetes ou fitas de nastro e veludo, desvaneceram-se, tendo-se perdido a origem da designação, do Pátio da Capela Real, quando reinava o rei magnânimo. As chitas ficaram nos antigos bailes de carnaval e no gáudio dos foliões de Entrudo. E vai longe a referência de Jorge Ferreira de Vasconcelos, na comédia Ulissipo, a um volumoso "cartapácio" - "Per algum cartapácio ledes vós, que vos faz tão sengo" (prudente e atilado). A minha mãe falava de desaustinados e de despautérios, e os meus tios iam desopilar depois de jantar nas ruas pacatas do Campo de Ourique. A palavra espampanante era comum para significar algo de assombroso - lembrando Silvana Pampanini, miss Itália de 1946 e um espada era um automóvel impressionante nas linhas e no aparato (como um Pontiac, um Chevrolet ou mesmo um Riley) ...

Almeida Garrett foi modelo de excêntrico, com o seu colete amarelo, as luvas cor de alfazema ou as almofadinhas para disfarçar a magreza e Fradique Mendes era um "génio excêntrico e correto" ... Por seu lado, o estafermo era mais que um boneco de picadeiro, desafiado por um cavaleiro numa pileca, era um imbecil, que só causava transtornos; enquanto um famigerado, de alguém com fama, degradou-se semanticamente, gerando desprezo e trampolinice. Um comerciante simpático desfazia-se em finezas, obséquios e "tenha a bondade", num "métier" de agradinhos à mistura com sortidos finos. E um professor primário não se ensaiava em distribuir galhetas, por uma conta errada ou um verbo mal conjugado. Quanto aos nomes das refeições, nos períodos que passava com meus avós no campo, estas ganhavam outras designações - o almoço era a primeira das refeições e o jantar a do meio do dia, enquanto a merenda era leve, pela tardinha, entre o jantar e a ceia... E nos pregões de Lisboa, ouvíamos "quem quer figos quem quer merendar"... Enfim, como para António Mega Ferreira, também o Cavaleiro Andante de Adolfo Simões Müller foi "a minha Bíblia pauperum, uma bíblia dos pobres, porque as imagens me contavam as histórias que ainda não conseguia ler" - e daí parti para Júlio Verne, Alexandre Dumas e tutti quanti, e para as Enciclopédias e mapas de meu avô, para deslindar muitos dos mistérios suscitados pela geografia e a história de vasta literatura disponível.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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