As nossas raízes estão lá fora

Só duas coisas podemos dar aos nossos filhos: as raízes e as asas
Provérbio yiddish

Antes de partir para o meu primeiro posto diplomático, nunca me tinha posto a questão de ser português. Pensava-me português por acidente, nem melhor nem pior do que qualquer outro acaso de nascimento que me pudesse ter acontecido. Eu era do mundo e o mundo não andava à minha procura, como fez a Ruben A: era eu quem tinha de ir ao encontro do mundo e ele estendia-se nos mapas, para além dos mares e das fronteiras terrestres, por espaços que a minha imaginação ansiosa povoara já de sonhos e de lendas, lugares que não viriam perder o seu brilho quando cheguei a vê-los, como sucedeu a Proust com Veneza, mas que se estendiam no espaço e no tempo à minha espera.

É quando vivemos fora da nossa terra que a questão sobre o que somos se nos vem finalmente colocar, ao nos vermos confrontados com a realidade dos outros. Um povo de mercadores e de migrantes como o nosso tinha que forçosamente adquirir, para sobreviver à sua miséria, características miméticas bem desenvolvidas, que passaram a património coletivo. Mas só nos reconhecemos verdadeiramente, como seres humanos ou como integrantes de uma ou várias comunidades, através do olhar que os outros lançam sobre nós e que nós enfrentamos nos outros. Como dizia Antonio Machado, El ojo que ves no es /ojo porque tu lo veas/es ojo porque te ve. Por isso eu só entendi bem que era português quando vivi fora de Portugal e me reconheci nos outros junto de quem vivia.

Quando em 1977 aterrei no aeroporto de Luanda, que já conhecera dois anos atrás, a terra vermelha, o bafo de calor e o estranho bronzeado amarelo dos colegas que vieram buscar-me ao aeroporto foram os primeiros sinais de estranheza a recordar-me que aquela não era a minha terra. Sempre o soubera, até pela luta clandestina anticolonial por que passara, sempre tivera consciência de que aqueles povos eram e deviam tornar-se independentes do mito imperial português e dos seus podres poderes. O que me escapara até então fora a profunda identidade de raízes que me ligava àqueles estranhos e tão familiares estrangeiros junto de quem passara a viver. Familiares, como o poeta moçambicano José Craveirinha dizia no seu poema "Ao meu belo pai ex emigrante"

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha única e bela nação do Mundo onde minha Mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.

Familiares na própria opressão partilhada e no próprio cruel dilaceramento que a situação colonial trazia. Ainda Craveirinha, no mesmo poema:

soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

Eu não passei nem sofri aquilo que sofreram os africanos e que foi muito. Mas a surpresa que para mim foi aquela África, que nunca tinha habitado os meus sonhos e que desde há muito considerava terra dos outros, foi a de, como mais tarde tentei dizer num poema, escrito na Ilha de Moçambique, te reconhecer como eu respiro. Era a terra dos outros, sim, mas qualquer coisa que falava a nossa língua ali ficara, para além da memória do tráfico de escravos, do indigenato e dos massacres de guerra, memórias que devem perdurar e não se podem perdoar, mas que existem ao lado de outras memórias e de outras histórias.

O que fica de nós na terra dos outros foi o que me fez descobrir que as nossas raízes estão fora de nós e que é só fora dos nossos lugares de origem que nos descobrimos tal e qual somos. É só fora do nosso espaço que encontramos as nossas raízes. Ou as nossas asas...

Diplomata e escritor

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