"As nossas direitas são diferentes"

Peço emprestado o título a Marcelo Rebelo de Sousa que explicou ao país com clareza e brilhantismo o que significa pertencer a uma direita da inclusão e do respeito pela centralidade da pessoa humana. Referiu-se aos princípios de uma direita social e deu exemplos muito práticos, que todos podemos entender, como a condenação da pena de morte e a rejeição da prisão perpétua. Neste último caso, de forma desassombrada e incomum, na qual, enquanto católica, me revejo particularmente: na crença inabalável de que qualquer ser humano pode, em qualquer momento da sua vida, arrepender-se, reconciliar-se e começar uma vida nova. De resto, a vida dos santos é abundante em exemplos, a começar por São Paulo.

À direita, ouvi e continuo a ouvir lamentos em relação à presidência de Marcelo Rebelo de Sousa: de quem não aprecia o estilo, reprova o posicionamento perante a governação da esquerda ou discorda da sua leitura dos poderes presidenciais, de que é exemplo a escassez de envio de diplomas para apreciação preventiva pelo Tribunal Constitucional. Mas não ouço alguém sustentar, com seriedade, que qualquer das candidatas ou candidatos desempenharia melhor a função presidencial do que o atual Presidente.

Por outro lado, é comum o comentário de que perante a perspetiva de um vencedor antecipado é bom mostrar o desagrado quanto ao rumo que o país tem levado nos últimos anos. Desagrado em relação à governação da esquerda e ao peso excessivo das esquerdas mais radicais, ou à imposição do politicamente correto cujos contornos são imputados a um domínio asfixiante de visões de esquerda. Neste caso, as pessoas partem do princípio de que um voto de protesto não põe em causa o resultado e deixa um aviso à navegação. Porém, todos nos lembramos de situações em que essa forma de pensar levou a consequências tão desconcertantes quanto negativas, como a saída do Reino Unido da União Europeia.

Como o próprio sublinhou, em eleições não há candidatos perfeitos como na vida não há pessoas perfeitas. Quem se situa no espaço político do centro e da direita tem por isso a escolha de dar ou não força a um Presidente popular, próximo das pessoas, com elevado sentido da história e respeito pelas instituições, que em tempos difíceis e de risco sério de instabilidade conseguiu manter o seu estilo singular, garantir a estabilidade nacional e credibilizar internacionalmente o nosso país. A força com que sair destas eleições é tudo menos irrelevante para um segundo mandato, que historicamente é sempre bem diferente do primeiro e, mais uma vez, decorrerá num contexto difícil. Ter um Presidente do espaço político de centro e direita fortalecido é especialmente importante quando o governo não goza de apoio maioritário no parlamento e reina a incerteza quanto ao fim da pandemia e às condições de recuperação económica e social.

O direito de voto é demasiado precioso para dar força a quem não protagoniza as ideias fundamentais de que partilhamos. O voto de protesto pode não ter consequência direta na determinação do vencedor, mas dar força a um ou outro candidato é arriscar, a prazo, consequências muito nefastas e à primeira vista imprevisíveis. O mundo é pródigo em exemplos de como a democracia precisa de ser acarinhada e construída todos os dias, hoje como ontem. O espetáculo desolador da invasão do Capitólio em Washington é disso exemplo gritante.

Professora da Nova School of Law. Coordenadora do Mestrado em Direito e Economia do Mar

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