As lições do passado que insistimos em ignorar

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"Aprender com as lições do passado.” Ouvi esta frase, ontem na SIC, e não consegui deixar de pensar o quão errado é usá-la quando se atravessam alguns dos mais difíceis dias de inverno dos últimos anos.

As imagens que nos são mostradas pelas câmaras das televisões ou pelas fotos publicadas ilustram zonas do país praticamente submersas, estradas intransitáveis, barragens obrigadas a fazer descargas e pessoas a serem obrigadas a sair das suas casas, seja por falta de condições de habitabilidade ou por precaução. E é bom recordar, mais de duas semanas depois da passagem da depressão Kristin - a que se seguiram a Leonardo, a Marta e a Nils em poucos dias - ainda há zonas só acessíveis através dos botes que as Forças Armadas disponibilizam.

Penso ser unânime que perante a força da primeira depressão que atingiu o país, na madrugada de 28 de janeiro, com muita chuva e ventos superiores a 150 quilómetros/hora, pouco se poderia fazer no imediato, além de socorrer quem foi atingido.

Mas a questão que nos leva à frase do início do texto é a aprendizagem que não foi feita.

Vejamos o exemplo de Coimbra: campos alagados, o Mondego a ultrapassar margens, a Barragem da Aguieira a tentar reter o máximo de água possível e, à hora em que escrevo, muitos receios de que alguns diques não aguentem a pressão e rebentem, provocando uma maior subida do nível da água.

E esta situação é nova? É a primeira vez que a cidade a enfrenta? A resposta é NÃO. Em 2001, chuvas extremas, as descargas da Aguieira e o rebentamento de diques fizeram com que o Baixo Mondego ficasse submerso e inúmeras famílias desalojadas.

Em 2008 anunciou-se a construção da Barragem de Girabolhos, em Seia, anunciada como essencial para ajudar a gerir o efeito das chuvas e a proteger Coimbra. Um projeto travado em 2016 por decisão do Governo liderado por António Costa, e que ganhou fôlego no passado dia 4 quando a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, anunciou que vai ser lançado até ao final de março o concurso de construção da infraestrutura.

Portanto, uma nova promessa. Tal como foi sempre acontecendo em Portugal quando há situações limites: foi assim nos incêndios em 2017 e pouco se viu de alterações de comportamento, tanto das pessoas como do Estado; aconteceu em 2001 e agora repetiu-se. Devíamos, assim, aprender a planear, a optar pela prevenção em vez da reação e a ter respostas rápidas. Por exemplo: levar a sério os alertas do Instituto do Mar e da Atmosfera, o que nestas semanas poderia ter ajudado a minorar alguns efeitos para tentarmos não ter mais de duas semanas após a sua passagem pessoas ainda isoladas ou sem eletricidade.

Editor executivo do Diário de Notícias

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