As instituições não são pedófilas

Com tanto que há para dizer sobre pedofilia e abusos sexuais de menores, e em particular sobre pedofilia e abusos sexuais de menores na Igreja Católica, entendi pedir ajuda ao senhor Jacques de La Palisse para fazer o título desta crónica. Desta forma, livramos a Igreja Católica portuguesa de culpas que não tem e tratamos de a questionar sobre as culpas que pode ter. Ou seja, ganhamos tempo e caráteres para conversar sobre o que há para fazer.

Há quem se insurja contra o que dizem ser uma campanha que pretende difamar a Igreja, se disponha, ainda assim, a defender que se investigue tudo até às últimas consequências, mas não passe da primeira consequência, que é muitas vezes a prescrição do crime, e dê o assunto por encerrado. A esses convém lembrar duas coisas:

1 - O crime prescreve na lei dos homens, mas nunca aos olhos de Deus em que dizem acreditar.

2 - A Bíblia conta-lhes que Cristo expulsou os vendedores do Templo, quando ainda não existia a Igreja que agora habitam e que foi fundada por Pedro, exatamente para que percebam que não há lugar nela para tanta gente amoral.

A Igreja Católica não é a vítima e os que, a ela pertencendo, garantem haver "outras instituições onde este flagelo grassa mais do que na Igreja" têm a obrigação de denunciar todos os casos de pedofilia e abusos sexuais que conhecem. Todos, sem exceções. Em vez de enfiarem a cabeça na areia, os que à Igreja pertencem, deveriam ter presente a forma como a instituição tem lidado com este problema por uma parte do seu clero:
a) encobrindo deliberadamente e tornando-se cúmplice;
b) mantendo dentro das quatro paredes e procurando resolver o problema com paliativos;
c) silenciando para o exterior, mas procurando resolver o problema em diálogo com a vítima e a sua família, ignorando as autoridades judiciais;
d) com total transparência, informando as autoridades e banindo da Igreja os criminosos, mesmo que o crime já tinha prescrito perante a lei.

Lamento que a última hipótese não tenha sido a mais utilizada, porque é a única que simultaneamente a iliba aos olhos do Deus que professam e a reabilita perante a ideia de Justiça dos Homens. Tudo o resto fica aquém. Pretender que a Igreja está capacitada para fazer investigações, realizar julgamentos e declarar sentenças - como pretende a Diocese de Setúbal em resposta à notícia do Expresso - é um desrespeito pelas vítimas e uma ofensa a um Estado laico onde vigora o princípio democrático da separação de poderes. E onde ninguém, é preciso não esquecer, está acima da lei.

A hierarquia da Igreja deve assumir que os casos de pedofilia e abusos sexuais de menores mal resolvidos pela imposição da regra do silêncio, que durou demasiado tempo, fez dela cúmplice de muitos outros casos que poderiam ter sido evitados se tudo tivesse sido tratado sempre com total transparência. De igual forma, faria bem em abandonar o papel de vítima, deixando transparecer que está mais preocupada com um alegado excesso de zelo jornalístico, que com o sofrimento de muitas vítimas que, sem a ajuda desse escrutínio dos media, nunca teriam direito ao mínimo de Justiça.

O caminho não será fácil. Há que realçar o mérito da Igreja que, a partir da vontade de Roma, se predispôs a investigar os abusos sexuais de menores no seu interior. É imperioso reconhecer que esse passo será crucial para persuadir potenciais criminosos e impedir a existência de muitas mais vítimas no futuro. Aplaudir a criação de uma Comissão Independente e o trabalho que ela tem vindo a realizar. Desejar que, no fim da jornada, os crentes recuperem a confiança total na sua Igreja e que todos os outros possam olhar para ela sem o preconceito de que ela esconde mais que o que revela.

Jornalista

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