As evidências da psicoterapia para a saúde mental

Numa altura em que a saúde mental se encontra no topo da agenda a nível mundial, importa refletir sobre a eficácia da psicoterapia e as críticas que, infelizmente, têm sido manifestadas por entidades supostamente credíveis, em contracorrente, aliás, com diversos estudos científicos existentes e contrariando, também, os pressupostos definidos ao nível das Nações Unidas.

Com efeito, o Conselho Mundial da Psicoterapia (WPC) é uma Organização Não Governamental das Nações Unidas filiada no Conselho Económico e Social (ECOSOC) desde maio de 2003. Na sua base, estão os princípios da Declaração de Estrasburgo sobre Psicoterapia definidos em 1990 e que, de acordo com os objetivos da Organização Mundial de Saúde (OMS), o acordo de não discriminação válido no quadro da União Europeia (UE) e o princípio da livre circulação de pessoas e serviços, levou à consideração da psicoterapia como "Uma disciplina científica independente, cuja prática representa uma profissão independente e livre".

Reconhecendo que "A formação em psicoterapia decorre a um nível avançado, qualificado e científico", os subscritores desde há 32 anos constatam não apenas que "A multiplicidade dos métodos psicoterapêuticos é assegurada e garantida" como também que "O treino psicoterapêutico completo abrange teoria, autoexperiência e prática sob supervisão" sendo o "acesso à formação feito através de várias habilitações prévias, nomeadamente em ciências humanas e sociais".

Como destacou recentemente um artigo do "New York Times", assinado por Thomas Homer-Dixon e Johan Rockström e dedicado ao conceito recente de "policrise global", todos nós enfrentamos no presente uma "tempestade perfeita de crises simultâneas" que junta a pandemia do coronavírus quase no início do seu quarto ano, uma guerra na Ucrânia que se prolonga e ameaça escalar a qualquer momento inclusive sob a ameaça da nuclearização, a crise climática sem solução à vista e o cenário de uma recessão no horizonte, com inflação elevada. Esta policrise, evidentemente, agrava o número de pessoas com distúrbios de saúde mental. Mas também, e em acréscimo, torna indispensável um reforço do investimento na sua prevenção, nas empresas e nas instituições, para além dos cuidados individuais. Essa prevenção passa inevitavelmente - ao contrário do que dizem os críticos, mais preocupados com o seu nicho de mercado do que com a saúde mental - pelo reconhecimento dos efeitos positivos obtidos graças às práticas psicoterapêuticas.

Para nos focarmos apenas nos últimos dois anos, fizeram notícias a nível mundial e nacional estudos que comprovaram mais uma vez a eficácia das abordagens psicoterapêuticas e entre os quais destacaria um assinado por sete economistas intitulado "Pobreza, Depressão e Ansiedade: Evidência Causal e Mecanismos" (o qual pode ser consultado aqui w27157.pdf (nber.org)) e ainda outro, "A Terapia Cognitivo-Comportamental Reduz a Criminalidade e a Violência ao longo de 10 anos: Evidências Experimentais" (cf. https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=4110752). A ambos já se referiu num seu artigo de opinião o economista Ricardo Reis, destacando ser "promissor que intervenções que custaram tão pouco dinheiro tenham efeitos tão grandes e tão persistentes".

Segundo um inquérito da Nova IMS que o economista também cita, as doenças relacionadas com a saúde mental são, para os Portugueses, as terceiras que consideram mais preocupantes no futuro, logo a seguir às doenças oncológicas e cardiovasculares. Sucede que, ao contrário das restantes, as doenças mentais enfrentam ainda para o seu tratamento preconceitos vários, como aliás reconheceu este ano o Primeiro-Ministro António Costa ao declarar que "Até há pouco tempo, as pessoas não assumiam quando havia problemas de saúde mental como sendo um problema de saúde. Era um tabu. Algo que envergonhava". Para o PM, essa fase já foi ultrapassada. No meu entender, ainda não o foi totalmente. Mas o que importa também erradicar são outros comportamentos limitativos e preconceituosos, vindos por vezes de lados inesperados e por quem julgaríamos informados sobre a realidade dos factos. Suscitando assim a dúvida sobre as razões desse questionamento de práticas que, desde há décadas, as Nações Unidas reconhecem e os resultados comprovam. Esperemos, para bem de todos, que a evidência prevaleça sobre a inconsciência.

Diretor da Clínica da Mente

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